A crise não parece ter fim PD48 | Página 90

cos, administrados por médicos, sejam cooperativas, empresas, planos de saúde.
2. A falência operacional do SUS
A integralidade e acessibilidade são dois dos princípios fundamentais que norteiam o Sistema Único de Saúde. Tornar realidade estes direitos, colocando à disposição das populações procedimentos diagnósticos e terapêuticos de alta complexidade são um grande desafio ao Estado. A expressão alta complexidade confunde-se com alta tecnologia, modernidade, dificuldade de acesso e, sobretudo, com alto custo. A medicina ocidental tem talvez 2.400 anos, mas as grandes descobertas científicas da medicina, que permitiram os avanços que efetivamente mudaram o curso das doenças aconteceram nos últimos 200 anos. E foram nos últimos 20 anos que testemunhamos a espantosa revolução tecnológica na medicina, que nós próprios, médicos, não imaginávamos viver.
As novas tecnologias chegam em intervalos cada vez mais curtos, como muito rapidamente vão se tornando obsoletas. São lançadas a preços exorbitantes e tão rapidamente são popularizados que, em poucos anos, os seus preços desabam. Novas tecnologias são criadas e novamente lançadas a altos preços, num interminável ciclo vicioso que, se de um lado, facilitam a acessibilidade, por outro adicionam ano a ano substancial ônus para a sociedade que avidamente reivindica a incorporação dos benefícios proporcionados por essas criações, a uma quantidade cada vez maior de indivíduos. Vive-se mais e melhor. Convive-se mais e melhor com a doença, mas sempre consumindo mais produtos e serviços médicos.
Vale lembrar que ao representarmos num triângulo equilátero a população atendida pelo sistema de saúde, as ações básicas de baixa complexidade beneficiariam ¾ da população, enquanto os ¼ restantes corresponderiam à população beneficiária das ações de média e alta complexidade. Desse ¼, ¾( portanto 3 / 16) à média complexidade e ¼ de ¼( portanto 1 / 16) à alta complexidade. Se esta última fração for subdivida, a altíssima complexidade ocuparia 1 / 32 e assim sucessivamente, de tal forma que a complexidade crescente dos procedimentos beneficia um número cada vez menor de pessoas. Da mesma forma se representarmos num triângulo semelhante o custo dessas ações, certamente teríamos um triângulo com a base voltada para cima, onde os 1 / 16 da alta complexidade consumiria 7 / 16 do custo.
88 Luis Mir