diversão ou uma janela para o respiro na árdua batalha pela
sobrevivência. Mas aqui já temos um primeiro passo, talvez, para
caminhadas maiores. Afinal, respirar nos mantém vivos – e por
isso mesmo esperançosos.
• Hoje, alguns setores da cultura e da reflexão revelam maior
preocupação em desconstruir do que em construir. Tendem,
ainda, a dizer que tudo se transformou em espetáculo e que o
sistema tudo absorve.Até o mérito virou demérito, vejam só (e aqui
não há como não recordar Alexis de Tocqueville: "a paixão pela
igualdade pode gerar tendências ruins"). Sinal dos tempos, prova-
velmente – e seguramente da falta de rumos aliada a uma impo-
tência por parte de uma parcela da intelectualidade. E aqui é
importante frisar, ainda, que está despontando uma nova intelec-
tualidade, formada pelos trabalhadores da ciência, sem dúvida
mais antenada com as mudanças em curso no mundo, tanto no
tocante à automação na esfera produtiva quanto às transforma-
ções na área das telecomunicações.
• Entre o comportamento elitista e a visão populista em maté-
ria de cultura – ambos questionáveis, a nosso juízo –, existe um
posicionamento democrático, pautado exclusivamente pela busca
da qualidade. Isto é, nem desdém nem demagogia. Mas – isto sim
– defesa de uma cultura comprometida com aquilo que a sensibi-
lidade e a razão das pessoas têm de melhor. Nem a cultura dita
popular é forçosamente revolucionária nem a cultura dita elitista
é necessariamente reacionária. O que interessa não é tanto de
onde se vem, mas para onde se vai. O ponto de partida se subor-
dina à ideia de processo em matéria de cultura.
• Quando há algum ataque à cultura dita elitista, eu me
pergunto se o que está em jogo é o termo cultura ou a palavra
elitista. Pois se o problema reside no elitismo, então é mais fácil de
resolver do que se imagina: vamos lutar para democratizá-lo,
propondo uma espécie de elitismo para todos e ponto final. Mas
desconfio que o verdadeiro alvo seja a cultura. Ela bate de frente
com o obscurantismo, essa antessala da barbárie.
• É mais comum do que se pensa, assim na cultura como na
política, travar um combate equivocado contra aquilo que já se
configura como um equívoco. Rechaçar de forma errada o que
errado está só aumenta a dimensão da tragédia.
• O idioma alemão acertou na mosca. Li uma vez em um ensaio
de Otto Maria Carpeaux, austríaco de nascimento, que o verbo
aufhegen significa tanto abolir quanto conservar. O espírito dialé-
tico é exatamente isso: superamos o passado, nunca o apagamos.
Notas Culturais II
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