A crise não parece ter fim PD48 | Page 179

diversão ou uma janela para o respiro na árdua batalha pela sobrevivência. Mas aqui já temos um primeiro passo, talvez, para caminhadas maiores. Afinal, respirar nos mantém vivos – e por isso mesmo esperançosos. • Hoje, alguns setores da cultura e da reflexão revelam maior preocupação em desconstruir do que em construir. Tendem, ainda, a dizer que tudo se transformou em espetáculo e que o sistema tudo absorve.Até o mérito virou demérito, vejam só (e aqui não há como não recordar Alexis de Tocqueville: "a paixão pela igualdade pode gerar tendências ruins"). Sinal dos tempos, prova- velmente – e seguramente da falta de rumos aliada a uma impo- tência por parte de uma parcela da intelectualidade. E aqui é importante frisar, ainda, que está despontando uma nova intelec- tualidade, formada pelos trabalhadores da ciência, sem dúvida mais antenada com as mudanças em curso no mundo, tanto no tocante à automação na esfera produtiva quanto às transforma- ções na área das telecomunicações. • Entre o comportamento elitista e a visão populista em maté- ria de cultura – ambos questionáveis, a nosso juízo –, existe um posicionamento democrático, pautado exclusivamente pela busca da qualidade. Isto é, nem desdém nem demagogia. Mas – isto sim – defesa de uma cultura comprometida com aquilo que a sensibi- lidade e a razão das pessoas têm de melhor. Nem a cultura dita popular é forçosamente revolucionária nem a cultura dita elitista é necessariamente reacionária. O que interessa não é tanto de onde se vem, mas para onde se vai. O ponto de partida se subor- dina à ideia de processo em matéria de cultura. • Quando há algum ataque à cultura dita elitista, eu me pergunto se o que está em jogo é o termo cultura ou a palavra elitista. Pois se o problema reside no elitismo, então é mais fácil de resolver do que se imagina: vamos lutar para democratizá-lo, propondo uma espécie de elitismo para todos e ponto final. Mas desconfio que o verdadeiro alvo seja a cultura. Ela bate de frente com o obscurantismo, essa antessala da barbárie. • É mais comum do que se pensa, assim na cultura como na política, travar um combate equivocado contra aquilo que já se configura como um equívoco. Rechaçar de forma errada o que errado está só aumenta a dimensão da tragédia. • O idioma alemão acertou na mosca. Li uma vez em um ensaio de Otto Maria Carpeaux, austríaco de nascimento, que o verbo aufhegen significa tanto abolir quanto conservar. O espírito dialé- tico é exatamente isso: superamos o passado, nunca o apagamos. Notas Culturais II 177