Notas Culturais II
Ivan Alves Filho
Em 2003, nesta mesma Política Democrática, publiquei umas Notas Culturais, às quais dou prosseguimento neste número.
• A forma – e não apenas o conteúdo – é portadora de toda uma concepção de mundo. Tanto o surgimento da perspectiva quanto o da profundidade de campo, por exemplo, devem muito às grandes navegações e às chamadas descobertas, que ampliaram significativamente o espaço de visão do homem. A pintura do Renascimento é prova disso. Na arquitetura, verifica-se algo semelhante, com as catedrais góticas apontando suas torres para o céu, cutucando as estrelas, à procura do infinito.
• A teoria não é capaz de oferecer, por si mesma, solução para os problemas que ela levanta. Este seu grande paradoxo: as questões teóricas possuem uma raiz prática. Sistema doutrinário algum substitui a experiência. A realidade é sempre o ponto de partida e ela prima sobre qualquer conceito – ainda que não o dispense. Assim, é preciso partir do real e, uma vez este abstraído, retornar à própria realidade, enriquecendo-a desta feita. Não há outra maneira de fazer com que a teoria se torne um instrumento de fato útil ao conhecimento.
• De maneira geral, a atividade cultural tem diversificado seu campo de criação e pesquisa. Mas é preciso cautela diante de uma tendência a uma certa especialização que pode gerar ignorantes de um novo tipo, ou seja, sem cultura geral e a necessária abrangência.
• É possível ir além do seu tempo em muitas áreas do conhecimento e da ação. Mas não em todas. É o que explica muitas lideranças políticas progressistas expondo posições atrasadas em relação à atividade cultural. E também muitos criadores talentosos marcarem o passo diante da política.
• As massas populares vivem de tal maneira esmagadas que dá para entender porque consideram que a cultura não tenha lá grande utilidade para elas. Já se observou que a cultura não é vista pelas massas como uma ajuda concreta em sua prática diária. No máximo, elas encaram a produção cultural como uma
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