nos seriam soltos, no dia 11 de julho, mas o governo estendeu a
detenção por mais uma semana.
O presidente Erdogan, com a narrativa que criou para o golpe
frustrado, justifica o aumento da repressão e reforça o seu
próprio poder e o do seu partido AKP. Durante algumas sema-
nas após a derrota da tentativa de golpe, celebrou-se a unidade
dos turcos contra o golpe militar. Foi como se momentaneamente
deixassem de ser lembrados todos os abusos contra o Estado de
Direito que vêm sendo cometidos desde 2004 e se agravaram
desde 2015, depois do afastamento do 1º ministro, Ahmet Davo-
toglu, pró-europeu. Tal unidade dissipou-se à medida que o
governo ampliou a repressão e surgiram dúvidas sobre os verda-
deiros responsáveis pelo golpe.
Quando o partido do governo, AKP, organizou o referendo para
aumentar os poderes da Presidência, em abril de 2017, os “erdo-
ganistas” trataram de desmoralizar a oposição com acusações
genéricas de que esta promovia os interesses das potências
ocidentais ou se aliava a terroristas. A vitória muita apertada no
referendo revelou um país dividido entre o apoio irrestrito a Erdo-
gan e ao partido AKP e uma oposição que o governo trata de apre-
sentar como ilegítima. A vitória sobre o golpe militar de 15 de
julho e a interpretação que lhe dá o governo agravaram a divisão.
Ninguém mais acredita que os expurgos e prisões estejam atin-
gindo apenas supostos “gulenistas”.
Os canais para expressar discordância tornaram-se tão limi-
tados que o maior partido de oposição, o Partido Popular Republi-
cano, CHP, organizou uma “Marcha por Justiça” entre Ancara e
Istambul. A marcha de 430 km começou no dia 15 de junho e foi
aparentemente deflagrada pela prisão do deputado do CHP que
entregou a um jornal o vídeo do fornecimento ilegal de armas. Nos
25 dias de estrada, a presença variou entre 5 mil e 20 mil pessoas,
dependendo das localidades pelas quais passavam; uns 2 milhões
se aglomeraram na chegada a Istambul. Até então este partido
CHP, predominantemente urbano e laico, limitara-se ao jogo
parlamentar, e alguns de seus deputados inclusive votaram com
o governo quando foram presos parlamentares do partido pró-
curdo HDP. Mas, como disse o presidente do CHP, Kemal Kiliçda-
roglu, quando a marcha estava para entrar em Istambul, em 9 de
julho: “Tivemos que fazer isso porque ficamos sem opções”.
Turquia: vitória democrática é pretexto para ditadura
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