A crise não parece ter fim PD48 | Page 139

nos seriam soltos, no dia 11 de julho, mas o governo estendeu a detenção por mais uma semana. O presidente Erdogan, com a narrativa que criou para o golpe frustrado, justifica o aumento da repressão e reforça o seu próprio poder e o do seu partido AKP. Durante algumas sema- nas após a derrota da tentativa de golpe, celebrou-se a unidade dos turcos contra o golpe militar. Foi como se momentaneamente deixassem de ser lembrados todos os abusos contra o Estado de Direito que vêm sendo cometidos desde 2004 e se agravaram desde 2015, depois do afastamento do 1º ministro, Ahmet Davo- toglu, pró-europeu. Tal unidade dissipou-se à medida que o governo ampliou a repressão e surgiram dúvidas sobre os verda- deiros responsáveis pelo golpe. Quando o partido do governo, AKP, organizou o referendo para aumentar os poderes da Presidência, em abril de 2017, os “erdo- ganistas” trataram de desmoralizar a oposição com acusações genéricas de que esta promovia os interesses das potências ocidentais ou se aliava a terroristas. A vitória muita apertada no referendo revelou um país dividido entre o apoio irrestrito a Erdo- gan e ao partido AKP e uma oposição que o governo trata de apre- sentar como ilegítima. A vitória sobre o golpe militar de 15 de julho e a interpretação que lhe dá o governo agravaram a divisão. Ninguém mais acredita que os expurgos e prisões estejam atin- gindo apenas supostos “gulenistas”. Os canais para expressar discordância tornaram-se tão limi- tados que o maior partido de oposição, o Partido Popular Republi- cano, CHP, organizou uma “Marcha por Justiça” entre Ancara e Istambul. A marcha de 430 km começou no dia 15 de junho e foi aparentemente deflagrada pela prisão do deputado do CHP que entregou a um jornal o vídeo do fornecimento ilegal de armas. Nos 25 dias de estrada, a presença variou entre 5 mil e 20 mil pessoas, dependendo das localidades pelas quais passavam; uns 2 milhões se aglomeraram na chegada a Istambul. Até então este partido CHP, predominantemente urbano e laico, limitara-se ao jogo parlamentar, e alguns de seus deputados inclusive votaram com o governo quando foram presos parlamentares do partido pró- curdo HDP. Mas, como disse o presidente do CHP, Kemal Kiliçda- roglu, quando a marcha estava para entrar em Istambul, em 9 de julho: “Tivemos que fazer isso porque ficamos sem opções”. Turquia: vitória democrática é pretexto para ditadura 137