A crise não parece ter fim PD48 | Page 138

tem sofrido maiores restrições de outros governos. Os europeus tentam evitar o desmantelamento do acordo com a Turquia que reduziu a entrada de refugiados na União Europeia, sobretudo os que chegavam em barcos precários a cruzar o Mar Egeu. Por esse acordo, em vigor desde março de 2016, a União Euro- peia pode mandar de volta para a Turquia os migrantes que chegam ilegalmente nas ilhas gregas, em troca de redução das exigências nos vistos para os nacionais turcos e ajuda financeira. Por outro lado, uma escalada do conflito político com a União Europeia pesaria sobre a economia turca, que já teve um boom na primeira década do século, está estagnada, a inflação em dois dígitos, a taxa de desemprego em 12,7%, e a lira turca perdendo valor. A União Europeia, em particular a Alemanha, é o principal parceiro comercial, para onde vão 45% das exportações e de onde vêm 40% das importações. Os americanos são igualmente cuidadosos com esse aliado na Otan. Há anos tentam organizar operações conjuntas com a Turquia para combater o Estado Islâmico na Síria. As negociações se dão há três anos, com altos e baixos, e sempre foram complica- das: enquanto a Turquia procura impedir que curdos ganhem força na Síria, por temer uma união entre o partido YPG (Unida- des de Proteção do Povo Curdo), da Síria, e o PKK, da Turquia, os Estados Unidos sempre buscaram maneiras de colaborar com a oposição curda na Síria, inclusive o YPG, que tem os grupos mais bem treinados e organizados e com melhor rede de apoio interna- cional. Além disso, há a preocupação de evitar que se reforce ainda mais e se consolide a nova aliança entre a Turquia e a Rússia no combate ao EI na Síria e nas várias tentativas de obter um cessar-fogo. E assim a diplomacia americana estava espe- rando o referendo turco de abril deste ano, pois, passada a campa- nha, Erdogan teria menos incentivo para explorar sentimentos nacionalistas contra os Estados Unidos. Mais recentemente, organizações de direitos humanos e alguns políticos europeus, inclusive Carl Bildt, ex-primeiro ministro da Suécia, se mobilizaram contra a prisão, dia 5 de julho, de dez ativistas que participavam de uma sessão de trei- namento em segurança digital. Entre os presos, o diretor do ramo turco da Anistia Internacional, Idil Eser, e dois técnicos estrangeiros. Um mês antes, havia sido preso outro diretor turco da Anistia Internacional, Taner Kilic. A acusação é de terro- rismo. A promessa era de que estes ativistas de direitos huma- 136 Helga Hoffmann