A Capitolina 10, outubro 2014 | Page 12

mini conto

“[...] Quase com um grito de alegria o velho abriu passagem para

dentro, retomou seu porte primitivo e, sem objetivo aparente,

andava para lá e para cá, em meio à multidão. [...]”

Edgar Allan Poe, em O Homem das Multidões

Ah, se eu pudesse escolher, nascia bicho, só pra seguir os instintos e não racionalizar. Que porcaria a gente pensa que é, tão superior a tudo e a todos, pra fazer e acontecer, decidir a vida das coisas, dos outros seres?

Não quero dar conta da vida de ninguém; da minha já basta, e ponto. Sou o que sou, sem querer ser o que os outros querem que eu seja.

Sou, defino, um ser híbrido, metamórfico, pois, porque a racionalidade me faz pensante, e o pensamento subjuga os instintos, e, assim sendo, sigo um caminho que nem sempre é o que quero, mas o que se apresenta como a melhor opção naquele instante; e se esse caminho já não é bom o bastante, basta pegar uma ramificação – não um atalho, porque não sou boba de pensar que a facilidade é para mim.

Basta seguir os caminhos que me levam junto com os outros, porque queira ou não faço parte de uma sociedade, e tenho uma classificação nela; um rótulo, na verdade. Qual seria? Não sei, e acho que nunca vou entender. Pertenço à sociedade, ela está à minha volta, mas eu não estou realmente nela. Não me vejo fazendo parte dessa massa aglutinada, mesmo que heterogênea, mas que o inconsciente coletivo trata de amalgamar, e nem entendo minha função nela.

Talvez se um dia eu me deixasse levar – e isso já seria pedir demais –, reconhecesse meu papel na vida, mas, antes, teria de entender sua estrutura, a construção sem sentido que viver representa na minha concepção. Só aí, encontrando as respostas mais profundas para os porquês que nunca ninguém, nem filosofia nem religião, nem uma só vez, me satisfizeram, eu desse uma chance pra qualquer convenção social ditar minhas relações.

Por isso o cinema me compensa, me inspira e faz pensar. Eu reconheço as estruturas com que as estórias são compostas, identifico as intenções só no jeito de falar, entonar, olhar e agir dos atores vivendo seus personagens, coisas que na literatura precisam estar descritas e por isso me tiram a atenção. Quero pensar o que o personagem pensa, não saber pelas palavras do autor o que ele pensa quando o personagem realiza determinada ação.

Preciso de estruturas, mesmo que provisórias como a duração de um filme, estruturas enquanto bases, sólidas, rígidas, pra que eu possa despejar sobre elas toda minha flexibilidade. Preciso da certeza das incertezas pra me convencer, ainda que por um átimo de segundo, de que nada que existe é para sempre, e talvez essa seja a beleza de existir, porque sei que sou efêmera, mesmo que tudo ao meu redor seja uma prolongação, em retalhos, de todos que já foram e serão um dia.

Por Rodrigo de Zafra Toffolo

Labirinto da Alma