em meio ao sofrimento, conteúdos reprimidos e fora de seu
controle. Um processo de crescimento individual, de domínio
racional sobre forças e motivos antes desconhecidos.
Na política, a catarse também seria mais tarde ressignificada
para designar um percurso aberto para grupos sociais e políticos
mais amplos: uma classe social, um partido e até um Estado.
O conceito aqui é relativamente menos difundido, mas vale a pena
nos determos um pouco sobre ele, dado o caráter essencial que
adquire como garantia de convivência civil e possibilidade de
encaminhar o conflito de indivíduos e grupos sociais.
Sem a catarse – adverte-nos Antonio Gramsci, o pensador que
melhor estudou o conceito – forças políticas não conseguem supe-
rar o estágio mais elementar de sua razão de ser. Dão voz, quando
muito, aos motivos econômico-corporativos, que podem até se
justificar num plano material imediato, sem que permitam elabo-
rar mediações políticas e culturais sofisticadas, capazes de
convencer aliados e, mais ainda, persuadir o conjunto da socie-
dade a seguir um determinado rumo melhor para todos, não
apenas para uma força em particular. Tal elaboração é um
processo complexo, requer a ativação de ingentes recursos inte-
lectuais, bem como a capacidade de superar egoísmos particula-
ristas e de se mover em campo aberto.
No tempo de Gramsci havia uma conexão bem mais direta do
que hoje entre partido e referente social, entre grupo político e
grupo econômico. Uma conexão que dava certezas ora insustentá-
veis, como a existência da classe universal dotada de um programa
para abolir toda a sociedade classista. Como se sabe, na socie-
dade líquida em que estamos imersos, tal relação se atenuou ou
mesmo, quem sabe, se perdeu. Indivíduos, agora, contam como
nunca, contam tanto ou mais do que os grupos sociais, e é preciso
saber a linguagem dos direitos para levar adiante a boa luta dos
nossos dias. Mais até do que naquela já distante modernidade
gramsciana, a catarse implica, sobretudo, renúncia à força e à
violência como princípio lógico de pensamento e mola propulsora
da ação, ainda que em torno de nós sejam em tão grande número
os cultores do ódio, da discriminação e da violência.
Com efeito, entre nós e um pouco por toda parte está a demo-
cracia sob cerco dos autoritários – de direita ou de esquerda –,
que não nos permitem baixar a guarda e menosprezar os riscos.
O discurso público reflete agudamente esse cerco e nessa história
A degradação do discurso público
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