À beira do precipício pd51 | Page 33

em meio ao sofrimento, conteúdos reprimidos e fora de seu controle. Um processo de crescimento individual, de domínio racional sobre forças e motivos antes desconhecidos. Na política, a catarse também seria mais tarde ressignificada para designar um percurso aberto para grupos sociais e políticos mais amplos: uma classe social, um partido e até um Estado. O conceito aqui é relativamente menos difundido, mas vale a pena nos determos um pouco sobre ele, dado o caráter essencial que adquire como garantia de convivência civil e possibilidade de encaminhar o conflito de indivíduos e grupos sociais. Sem a catarse – adverte-nos Antonio Gramsci, o pensador que melhor estudou o conceito – forças políticas não conseguem supe- rar o estágio mais elementar de sua razão de ser. Dão voz, quando muito, aos motivos econômico-corporativos, que podem até se justificar num plano material imediato, sem que permitam elabo- rar mediações políticas e culturais sofisticadas, capazes de convencer aliados e, mais ainda, persuadir o conjunto da socie- dade a seguir um determinado rumo melhor para todos, não apenas para uma força em particular. Tal elaboração é um processo complexo, requer a ativação de ingentes recursos inte- lectuais, bem como a capacidade de superar egoísmos particula- ristas e de se mover em campo aberto. No tempo de Gramsci havia uma conexão bem mais direta do que hoje entre partido e referente social, entre grupo político e grupo econômico. Uma conexão que dava certezas ora insustentá- veis, como a existência da classe universal dotada de um programa para abolir toda a sociedade classista. Como se sabe, na socie- dade líquida em que estamos imersos, tal relação se atenuou ou mesmo, quem sabe, se perdeu. Indivíduos, agora, contam como nunca, contam tanto ou mais do que os grupos sociais, e é preciso saber a linguagem dos direitos para levar adiante a boa luta dos nossos dias. Mais até do que naquela já distante modernidade gramsciana, a catarse implica, sobretudo, renúncia à força e à violência como princípio lógico de pensamento e mola propulsora da ação, ainda que em torno de nós sejam em tão grande número os cultores do ódio, da discriminação e da violência. Com efeito, entre nós e um pouco por toda parte está a demo- cracia sob cerco dos autoritários – de direita ou de esquerda –, que não nos permitem baixar a guarda e menosprezar os riscos. O discurso público reflete agudamente esse cerco e nessa história A degradação do discurso público 31