Não deveria surpreender. O acordo com o“ Centrão” foi entendido como uma conquista importante, mas talvez não renda muitos dividendos e se converta em problema. Se uma coligação não se apoia em convicções programáticas, mas tão-somente em cálculos de oportunidade, não há porque esperar coerência ou lealdade de seus signatários: faz-se no Norte o contrário do que se faz no Sul, o acordo não se replica uniformemente. Em cada pedaço do país hasteia-se uma bandeira, conforme conveniências e interesses.
Nunca, nas últimas décadas, a polarização entre tucanos e petistas esteve tão mal das pernas.
Efeitos colaterais
Estamos na entressafra, mas os candidatos não são iguais entre si, não se equivalem. Apresentam propostas distintas e apoiam-se em biografias políticas particulares. Seria um erro vê-los como fazendo parte de um único núcleo de políticos profissionais, irmanados na mesma desqualificação. Temos de perceber aquilo que os diferencia em termos programáticos, de apoio social e de trajetória política. As eleições de 2018 serão importantes demais para que os eleitores não se esforcem para compreender o que está em jogo nas promessas e compromissos de cada candidato.
O campo da democracia no Brasil vive hoje um dilema: é possível trabalhar para que se tenha uma mudança que mexa nas estruturas, nos sistemas em geral, nas instituições, nos hábitos políticos, que produza mais vida civilizada? De que modo: mediante ataques frontais e explosões de indignação, ou por negociações longas, transações cuidadosas, de modo incremental? Alianças à direita ou com a“ velha política” impedem a mudança necessária ou precisam ser toleradas? O que fazer com o“ Centrão” e com as bancadas setoriais, que burlam os partidos e chantageiam o Executivo?
Mudar tornou-se um imperativo. A mudança já está entre nós, acelerada, sem que percebamos bem, cegos que estamos por disputas e polarizações paralisantes. O Brasil não é um doente terminal, não vai acabar nem descarrilhar depois das eleições, seja quem for o próximo presidente. Não há porque ficar parado perante um inimigo da democracia, nem temer os populistas de plantão. Não haverá salvadores da pátria e todos terão de coope-
24 Marco Aurélio Nogueira