À beira do precipício pd51 | Page 24

como formiguinha e com a colaboração não profissional de um conjunto de seguidores que a tratam com reverência. A deficiência que a afeta força a que se examine uma questão nem sempre bem considerada no presidencialismo brasileiro. Será mesmo indispensável que um governo tenha sempre uma maioria leal e disposta a votar fechado, ou seria mais interessante que se formassem várias maiorias, uma para cada questão da agenda? A primeira via sugere maior facilidade e é decisionista, mas cobra preço alto em troca de apoios e favores. A segunda via é mais complexa e exige esforço redobrado de articulação, mas tende a ser coerente. Nosso presidencialismo de coalizão incentiva o primeiro método, e não é que tenhamos tido sempre boa governança e gover- nabilidade. Poder-se-ia pensar nas vantagens do segundo método, que Marina chama de “presidencialismo de proposição”. Em termos de análise prospectiva, podemos pensar que Marina, caso vença, será levada a buscar alianças de novo tipo e estas poderão fazer com que atue no sentido de ser um vetor de reorga- nização das forças mais progressistas, agregando a seu governo os votos, a força política e o empenho reformador dos partidos demo- cráticos, de movimentos sociais e organizações populares. O ganho que se obteria com tal perspectiva daria à tese da “nova política” uma materialidade e uma tradução prática que ela não tem. Antes de tudo, compensaria o baixo poder relativo dos diferen- tes partidos e movimentos de esquerda, fornecendo-lhes melhores condições para testar suas propostas. Depois, porque cimentaria uma base política para reformas audaciosas e daria a essa base o devido apoio social. Em terceiro lugar, porque ajudaria os demo- cratas e as esquerdas a depurarem suas cristalizações regressis- tas remanescentes, a se renovarem e a considerarem com maior afinco o desafio da cooperação. Por fim, porque as convidaria o país a entrar em contato mais ativo e inteligente com a nova socie- dade que vem emergindo nos últimos anos. Os compromissos programáticos de Marina são ambiciosos, o que significa dizer que serão de difícil aplicação. Muitos trafegam na contramão do sistema atual. Ela defende o meio ambiente e a sustentabilidade, é a única falar em crise climática e na Amazô- nia, em populações ribeirinhas e indígenas. Posiciona-se firme- mente contra a corrupção, prega a justiça restaurativa e as penas alternativas. Sua postura republicana e pluralista abre-se para os movimentos sociais e entende que os partidos devem ser 22 Marco Aurélio Nogueira