como formiguinha e com a colaboração não profissional de um
conjunto de seguidores que a tratam com reverência.
A deficiência que a afeta força a que se examine uma questão
nem sempre bem considerada no presidencialismo brasileiro. Será
mesmo indispensável que um governo tenha sempre uma maioria
leal e disposta a votar fechado, ou seria mais interessante que se
formassem várias maiorias, uma para cada questão da agenda?
A primeira via sugere maior facilidade e é decisionista, mas cobra
preço alto em troca de apoios e favores. A segunda via é mais
complexa e exige esforço redobrado de articulação, mas tende a ser
coerente. Nosso presidencialismo de coalizão incentiva o primeiro
método, e não é que tenhamos tido sempre boa governança e gover-
nabilidade. Poder-se-ia pensar nas vantagens do segundo método,
que Marina chama de “presidencialismo de proposição”.
Em termos de análise prospectiva, podemos pensar que Marina,
caso vença, será levada a buscar alianças de novo tipo e estas
poderão fazer com que atue no sentido de ser um vetor de reorga-
nização das forças mais progressistas, agregando a seu governo os
votos, a força política e o empenho reformador dos partidos demo-
cráticos, de movimentos sociais e organizações populares. O ganho
que se obteria com tal perspectiva daria à tese da “nova política”
uma materialidade e uma tradução prática que ela não tem.
Antes de tudo, compensaria o baixo poder relativo dos diferen-
tes partidos e movimentos de esquerda, fornecendo-lhes melhores
condições para testar suas propostas. Depois, porque cimentaria
uma base política para reformas audaciosas e daria a essa base o
devido apoio social. Em terceiro lugar, porque ajudaria os demo-
cratas e as esquerdas a depurarem suas cristalizações regressis-
tas remanescentes, a se renovarem e a considerarem com maior
afinco o desafio da cooperação. Por fim, porque as convidaria o
país a entrar em contato mais ativo e inteligente com a nova socie-
dade que vem emergindo nos últimos anos.
Os compromissos programáticos de Marina são ambiciosos, o
que significa dizer que serão de difícil aplicação. Muitos trafegam
na contramão do sistema atual. Ela defende o meio ambiente e a
sustentabilidade, é a única falar em crise climática e na Amazô-
nia, em populações ribeirinhas e indígenas. Posiciona-se firme-
mente contra a corrupção, prega a justiça restaurativa e as penas
alternativas. Sua postura republicana e pluralista abre-se para
os movimentos sociais e entende que os partidos devem ser
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Marco Aurélio Nogueira