À beira do precipício pd51 | Page 199

A princípio, essa biografia deveria ser escrita pelo próprio Werneck ou por Joaquim Branco, nascidos em Cataguases, que, em sua juventude naquela mítica cidade do interior de Minas Gerais, conheceram o romancista já em seus últimos anos de vida. Ou por Luiz Ruffato, cataguasense de geração mais recente.
Mas, pensando bem, dessa missão também poderia encarregar-se um pesquisador literário disposto a escrever uma tese de doutoramento em Letras na área de Literatura Brasileira. Nesse caso, Werneck, Branco e Ruffato seriam fontes indispensáveis. Até porque a essa altura da vida já não haveria contemporâneos da época de juventude de Fusco.
Portanto, Sob o signo do imprevisto é, desde já, uma contribuição indispensável e valiosa para uma futura biografia de Fusco, pois traz não só as lembranças que Werneck guardou, como a famosa entrevista que o romancista deu a ele e a Joaquim Branco e publicada pelo semanário O Pasquim, do Rio de Janeiro, na edição de 19 a 25 de março de 1976.
O real independe da existência
Naquela entrevista, depois de dizer que“ ninguém vive de literatura”, Fusco dava como exemplo o escritor francês Louis-Ferdinand Céline( 1894-1961) que, segundo ele, vivia à custa de uma jovem mulher e não podia admitir que um de seus romances pudesse vender apenas 30 mil exemplares, enquanto as memórias de um ex-secretário da atriz Brigitte Bardot vendiam mais de 300 mil“ só na chamada área parisiense”( p. 102).
Ainda naquela entrevista, esbanjando erudição, Fusco diziase precursor do“ realismo fantástico” no romance sul-americano. Lembrava que Julio Cortázar( 1914-1984) aprendera“ a coisa” com Jorge Luis Borges( 1899-1986), que começara a produzir textos de“ realismo fantástico” em 1942.“ Ora, em 39, eu escrevi O Agressor, que demorou quatro anos na José Olympio e só saiu em 43”, argumentava.
Depois, ridicularizou o“ realismo fantástico”, considerando-o“ besteira”, lembrando que já existia o suprarrealismo de André Breton( 1896-1966) e Guillaume Apollinaire( 1880-1918). E acrescentava:“[…] o suprarreal, significando algo mais que o real ou o outro lado dele, diz mais do que realismo grudado a fantástico”.
Para tirar Rosário Fuscodo esquecimento
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