identidade própria.
Lançado em 2014, Corrente do Mal tem todos os requisitos de um filme de horror independente. Seja em seu orçamento enxuto e nas possibilidades limitadas de produção( que inclusive estão presentes e justificadas em algumas escolhas narrativas do longa) ou na estética independente assegurada pela fotografia do filme, o diretor David Robert Mitchell demonstra muita consciência e um pulso firme na confecção do ritmo de suspense necessário para filmes do gênero.
O verdadeiro esmero de Corrente do Mal reside no discurso social que o diretor se dispõem a trabalhar, subvertendo um elemento comum dos filmes de slasher. Se nos filmes de maníacos dos anos 80 os primeiros a morrer sempre eram os jovens que transavam, aqui toda a premissa da película, assim como a sobrevivência da protagonista, depende do ato sexual da mesma. É por meio de uma one night stand que a protagonista Jay acaba recebendo uma maldição que, de acordo com a mitologia construída no enredo, perseguiria a jovem até que ela passasse o fardo adiante, por meio de outra relação sexual.
Além da metáfora clara sobre doenças sexualmente transmissíveis, Mitchell é cirúrgico ao escolher a cidade de Detroit como ambientação para o longa. O uso dos vários planos abertos para captar os cenários de desolação de uma cidade que outrora foi símbolo do American Way of Life funcionam perfeitamente para construir a sensação melancólica de insegurança que o filme explora, trabalhando com mais uma representação de uma característica da sociedade americana contemporânea.
Mas, talvez, de todos os bons filmes do gênero lançados nos últimos cinco anos, Corra!( 2017) seja a produção que mais edifica um posicionamento social claro. Na trama acompanhamos o jovem negro Chris Washington que namora Rose Armitage, uma garota branca que pretende levar seu namorado para conhecer sua família. A partir desta premissa simples, o diretor Jordan Peele, que também assina o roteiro, desenvolve um filme repleto de nuances e críticas sociais afiadas ao racismo existente nos Estados Unidos, mas que consegue ultrapassar limites regionais e identificar situações que acontecem no Brasil.
Com a chegada à casa dos pais e o consequente convívio com a família, o roteiro usa de Chris para guiar o espectador por acontecimentos assombrosos, explorando as inúmeras possibilidades do que pode estar por vir. O ritmo crescente e tenso da produção permite um jogo psicológico com espectador, que acaba sentindo na pela o desconforto e a desconfiança da personagem.
A sensação de perigo e urgência não se exaure em momento algum, mantendo o espectador com uma sensação de tensão por toda a projeção. Se dos horrores que a trama apresenta na virada do segundo para o terceiro ato, e principalmente em seu desfecho, Peele discute o racismo ostensivo e claro, é na inocência de Rose que consegue abordar as atitudes mais sutis da sociedade, mas que são igualmente preconceituosas.
Se os sogros do protagonista funcionam como uma espécie de arquétipo dos liberais americanos preconceituosos que“ votariam em Obama por uma terceira vez”, como o próprio filme coloca, a personagem Rose é uma representação de um“ dedo na ferida da sociedade”, evidenciando atitudes muitas vezes normalizadas ou que são pouco problematizadas.
De todos os merecidos elogios, Corra! se destaca por, mesmo depois de sua revelação mais forte que resolve o quebra-cabeça construído na trama, conseguir manter o espectador preso à jornada de Chris, reservando um último momento tão angustiante e pungente quanto à problemática social trabalhada como subtexto.
Apesar de estes últimos três filmes não possuírem uma temática específica conjunta, todos trabalham discursos sociais relevantes e urgentes na sociedade contemporânea atual. Talvez seja difícil cravar o início de um novo ciclo, um que poderia ser sustentado por representações de minorias e de subversões do próprio gênero, mas é inegável que a última década tem sido um período repleto de excelentes filmes de horror, produzidos por realizadores conscientes das possibilidades discursivas e reflexivas de um dos gêneros mais importantes da sétima arte.
Pôster
de Corra!( 2017), terror que trabalha com críticas ao racismo e outras questões sociais