Estratégias semântico-argumentativas e enunciativas em charges sobre o processo de impeachment
Charge 10
A charge 10, publicada no jornal O Liberal, em 21 de abril de 2016, é um caso de polifonia com intertextualidade. O texto faz duas referências a fatos históricos: hodiernamente, à votação do processo de impeachment contra a presidente Dilma Roussef, ocorrida na Câmara dos Deputados, historicamente, à execução de Tiradentes, enforcado em 21 de abril 1792, isso pode ser recuperado tanto pela forca quanto pela referência contida no discurso do carrasco a Joaquim Silvério dos Reis, delator dos inconfidentes mineiros. Na charge, Dilma está preste a ser executada em uma forca que leva a sigla PMDB e o carrasco lê para a acusada a justificativa da execução:“ Pelo meu filho e pelo grande amigo Joaquim Silvério dos Reis”. Esse discurso remete diretamente ao que ocorreu durante a votação do impeachment, transmitida em rede nacional, os políticos ao votarem contra ou a favor davam as mais variadas justificativas, algumas sem aparente relação ao trâmite do processo político ou a um crime de responsabilidade: em grande parte dos casos, como retratado na charge, os que votaram faziam citações de seus familiares e parentes próximos. Na charge há polifonia da modalidade intertextualidade implícita ativada através do recurso da captação, pois recupera-se um discurso alheio ou da coletividade, nesse caso, o discurso dos
deputados que votaram no impeachment, de modo que:
E0:“ Pela minha família! Meus filhos, Estevão, Amanda, pela minha esposa, pelos meus país, por Deus, por minha família, pelas pessoas de bem. Meu voto é sim! Fora Dilma, Fora Lula, Fora PT!”( Folha de São Paulo, 17 de abr. 2016,“ veja frases dos deputados durante a votação do impeachment”/ Texto-fonte)
E1: Pelo meu filho e pelo grande amigo Joaquim Silvério dos Reis!( Reformulação do texto-fonte)
O locutor-chargista recupera o discurso dos políticos( E0) e o introduz na charge de modo implícito, uma vez que não há menção à fonte de origem, deixando para o leitor completar o processo de identificação do intertexto. Após recuperado, esse discurso é captado e reproduzido em parte, com acréscimo de algumas informações novas, mas com a mesma orientação argumentativa do texto fonte, que é apresentar justificativas para executar uma ação, no caso, uma razão para justificar o impeachment. Por intermédio de E1, o chargista ironiza as justificativas dadas por muitos deputados durante a votação do impeachment, as quais, em sua maioria, não apresentariam relação direta a um crime de responsabilidade que justificariam o afastamento de Dilma da presidência.
Série Iniciados v. 23
565