Samba Acadêmico Brasil Edição 13 ANO II Abril 2017 | Página 81

O

ficio dos Mestres de Capoeira

“(...) existe um conflito estabelecido entre o mestre sem formação escolar e o professor de educação física, considerado apto a substituí-lo. De um lado, o saber da cultura popular; de outro, o conhecimento formal e conceitual das universidades. Nos últimos anos, a capoeira ganhou o Brasil e o mundo e as escolas contemporâneas tiveram que se reorganizar a partir de princípios próprios e distintos. Há uma recuperação dos valores tradicionais da Capoeira Angola no que tange às formas de ensino e aprendizado, em que se pretende trazer de volta o método tradicional da “oitiva”, resistindo, a seu modo, ao processo de escolarização formal. Dessa maneira, estamos diante de duas tradições de ensino e aprendizado que atravessaram a história da capoeira. O modelo da escola tradicional, voltado para a sistematização, racionalização e competição, em que o importante é o resultado ou a eficiência do processo de aprendizado, e o modo inspirado na forma antiga de aprender, na qual a vadiação, a brincadeira e a estética tornam-se base. Não é justo afirmar que a Capoeira Angola é o patrimônio da forma antiga de aprender e a Capoeira Regional é o da forma escolar e formal. Podemos apenas constatar nelas o que historicamente se apresenta como forma hegemônica de aprender e ensinar. Existem grupos e grupos de Capoeira Angola e Regional. Se olharmos bem de perto para cada um deles, poderemos perfeitamente encontrar, no aprendizado do dia a dia, marcas dessas duas tendências, com uma predominância do modo escolar e formal. A história e a tradição da capoeira e de suas formas de aprendizado ainda continuam abertas, num jogo incompleto, sem vencedor ou vencido.” Dossiê Capoeira IPHAN pgs 88 e 89.

“É importante frisar que o ensino/aprendizagem da capoeira não deve ser voltado apenas para o aspecto técnico de aprender determinada forma de luta e de esporte. O ensino de golpes, contragolpes, esquivas e sequências deverá ser acompanhado de transmissão de todos os elementos que envolvem a sua cultura, história, origem e evolução, ao tempo em que se estimulará a pesquisa, debate e discussão em seminários, para que o educando tenha participação efetiva no contexto da capoeira como um todo”.diz Mestre Xeréu Dossiê Capoeira IPHAN pg 86.

A UFRJ está debatendo o tema da aceitação dos Saberes de mestres da cultura popular no meio acadêmico. O coordenador do fórum de Ciência e Cultura da UFRJ Carlos Wainer, ”explica que já existem na instituição iniciativas de diálogo e articulação com saberes não acadêmicos, populares e tradicionais em diferentes áreas como música, dança, ensino e pesquisa em antropologia social e ciências sociais. A ideia agora é estruturar essas experiências.” Conforme matéria “UFRJ debate inclusão de saberes populares no ambiente acadêmico” de Akemi Nitahara – repórter da agência Brasil de 28/01-2016.

A Roda de Capoeira foi registrada como bem cultural pelo IPHAN em 2008, o inventário foi realizado na Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro considerados berços desta expressão cultural.

Em 2014 a UNESCO concedeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade a Roda de Capoeira.

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