ão foram nossos ancestrais colonizadores portugueses, nem os desbravadores europeus todos em terras brasileiras, nem os forçados imigrantes negros, e tampouco
os americanos indígenas tupiniquins que regurgitaram a Cultura Popular Brasileira. Muito ao contrário, chegaram e foram se amoldando a uma matriz que ajudaram a construir. Foi a própria burguesia nacional que se autodenominou de sociedade brasileira, guardiã do saber necessário e exclusivo da identidade cultural brasileira, e em meio a várias mudanças nas artes ocorridas na Europa, fazendo com que teatros, exposições de telas, cinemas, entrassem no cotidiano dos burgueses, e apenas eles (a burguesia) tinham acesso a esse mundo da arte. Estava em curso a Belle Epóque. Olavo Bilac em sua crônica “A Festa da Penha” de 1906, tomado pela cegueira causada pela vontade burguesa de momento emoldurada da “Belle Epóque”, derrama toda a sua falta de interesse e indignação em relação à Cultura Popular Brasileira. Entre muitas passagens cito:- “... em que triunfavam as mais baixas paixões da plebe e dos escravos”. E Também: - “... E devo confessar que nunca a Festa da Penha me pareceu tão bárbara com este ano. É que esses carros e carroções, enfeitados com colchas de chita, puxados por muares ajaezados de festões, e cheios de gente ébria e vociferante, passeando pela cidade a sua escandalosa bruega; esses bandos de romeiros cambaleantes, como o chapes esmagado ao peso das roscas, e o peito cheio de medalhas de zurrapa; esse alarido, esse tropel de povo desregrado...” Mais: - ”... Em grande parte, a culpa da conservação dessa usança bárbara cabe aos jornais, que inconscientemente animam e encorajam a orgia, dando-lhe adjetivos pomposos, e continuando, não se sabe por que, a atribuir um caráter religioso a uma festa que é apenas um Carnaval disfarçado, muito pior do que o outro”. (BILAC, 1906) Crônica “A Festa da Penha”
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Mal Hermes da Fonseca (ministro da Guerra) em 1907 havia proibido as bandas militares de executarem o Maxixe (primo irmão do Samba).
A Igreja Católica também embirrou com ritmo condenando o que chama de “dança indecente”.
Em 1914 foi a vez de Rui Barbosa se manifestar na tribuna do senado quando Nair de Teffé, esposa do então presidente Mal Hermes da Fonseca, executou em recepção presidencial o Maxixe “Corta Jaca” de Chiquinha Gonzaga. Rui Barbosa disse o seguinte:- “..
A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do Samba. Mas nas recepções presidenciais o “Corta Jaca” é executado com todas as honras de Wagner, e não se quer que a consciência desse país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!”.A esse respeito Nair de Teffé comenta:-
“As pedras que ele me atirou não me atingiram. Elas dormem esquecidas no fundo do mar ou na terra e só serviram para assinalar a luta que enfrentei contra o preconceito de então:
”.Dizer que apenas uma classe social é a portadora da cultura é uma definição elitista e uma expressão da cultura burguesa.
Segundo Jose Adriano Fenerick:- “Quando não é vista como perigosa, a cultura é vista como supérflua”. E também:-
”Mal sabem eles, os nossos governantes, que o ser humano deixou sua condição animal de besta-fera para começar a se fazer humano graças à cultura, em seu sentido mais amplo, e nada mais concreto e material na vida humana que a cultura”.
Texto de Carlos José Fernandes Neto publicado no site www.guarumusic.com.br