da passagem de ônibus em 20 centavos, na cidade de São Paulo.
Reativos às instâncias tradicionais da representação social (sindi-
catos, partidos, associações etc.), esses movimentos embandeira-
ram o lema “Não me representa” para se afastar de qualquer poder
simbólico ligado à opinião pública e ao estabilishment político.
Situadas em um contexto de cultura democrática da sociedade
brasileira, as Jornadas de Junho representaram um “conjunto de
reivindicações individuais flagrantemente subjetivas, mas deman-
dadas em termos coletivos e comunitários”. (AGGIO, 2017, p. 27).
Reflexo desse acirramento das tensões sociais no Brasil, as
eleições de 2014 não conseguiriam traduzir de modo institucional
as demandas difusas de 2013. O resultado dessa polarização
cacofônica que se instalou ao logo do processo eleitoral foi uma
eleição vencida por Dilma Rousseff, que se transformou em um
estelionato eleitoral, quando a presidente reeleita tentou se apro-
priar do programa político opositor. Somados a alguns erros de
cálculo político e denunciada por maquiagem nas contas públi-
cas, a ex-presidente enfrentou diversas manifestações populares
ao longo de 2015 e 2016, sendo afastada e, posteriormente, impe-
dida de exercer seu mandato. Diante disso, ao contrário da hete-
rogeneidade das pautas de 2013, nas manifestações de 2015
“havia, além de reivindicações e anseios similares aos de 2013 no
tocante aos serviços públicos, uma bandeira de luta unificadora:
o impeachment da presidente recém reeleita e uma repulsa aber-
tamente identificada a seu partido, o PT”. (AGGIO, 2017, p. 30).
Segundo o historiador, apesar de estarmos vivenciando um
momento de intesas polarizações, existe uma luz no fim do túnel.
Mesmo reconhecendo os desafios atuais da sociedade brasileira,
Aggio termina seu texto destacando o papel da consolidação da
democracia como base para o desenvolvimento de uma nova polí-
tica democrática, que consiga dialogar com a expectativa das ruas
e o desprendimento de seus novos atores sociais alcançado, assim,
um novo encontro com a modernidade política.
Na esteira da relação entre o indivíduo, o exercício da cidadania
e suas relações com o Estado na contemporaneidade, o cientista
político Marco Aurélio Nogueira analisa algumas fissuras dessa
interação no corpo político brasileiro. Em Cidadãos imperfeitos,
Nogueira almeja traçar um quadro histórico acerca da construção
da cidadania no Brasil. Adepto a uma visão que enxerga uma
“modernização pelo alto” da sociedade brasileira no século XX,
Nogueira afirma que o “Brasil foi alcançado por uma impetuosa
revolução moderna durante o século XX”, industrializando-se,
194
Victor Augusto Ramos Missiato