Afonso Arinos e o fantasma de Getúlio
Edmílson Caminha
E
ntre os grandes escritores que, ao longo da história (e até
recentemente), dignificaram a política brasileira, mencio-
nem-se quatro, pela inteligência e pelo saber que lhes eram
comuns: José de Alencar, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e Afonso
Arinos de Melo Franco, o mineiro ilustre que me concedeu, em 1986,
substanciosa entrevista para o Diário do Nordeste, de Fortaleza.
No ensaísta do Espelho de três faces, no sociólogo de O índio
brasileiro e a Revolução Francesa, no historiador de Um estadista
da República notam-se o conhecimento da língua e o apuro literá-
rio do memorialista de A alma do tempo, A escalada, Planalto e
Alto-mar/maralto, primores do gênero em nossa literatura.
Diretor do Instituto de Direito Público e Ciência Política da
Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, recebeu-me em seu
escritório para a conversa em que falou de literatura mas, princi-
palmente, dos trabalhos da Comissão de Estudos Constitucionais
que presidia, encarregada de estabelecer os parâmetros da Cons-
tituição Federal que viria a ser promulgada em 1988.
Deu-me respostas comedidas, ponderadas, em que, diferente-
mente de tantos fanfarrões, não buscou reescrever o passado,
para atribuir-se importância maior do que verdadeiramente
tivera. Perguntei-lhe: “O ministro Hermes Lima, seu companheiro
de Itamarati, costumava dizer que política é uma atividade para
pecadores. Como o senhor fez para conciliar a honradez e a digni-
dade com os conchavos próprios de um mandato parlamentar?
As transigências da função política não o incomodavam?”.
Com franqueza e elegância, respondeu:
“Não, porque nunca tive prestígio político, propriamente. Eu
era o homem que falava, me mandavam para a tribuna. Dos acor-
dos partidários, lutas, paixões, ambições, não participava muito.
O que eu fazia era falar, dizem que melhor do que os outros.
Então, era o homem que ia para a tribuna: eles resolviam e eu
expunha, às vezes com excessiva veemência, reconheço. Nunca
pretendi influir decisivamente no meu partido: resistia a certas
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