são corporais assim como estes são também “espirituais”. Há
algo mais nesse erro.
O que ia para o consumo da boca, do nariz e da pele era gerado
por trabalho feito por escravos – roupas, sandálias, alimentos,
massagens, aromas –, enquanto pinturas e esculturas, música e
peças teatrais, casas e praças eram feitas por trabalhadores
livres. A diferença de corpo e alma decorria da diferença do valor
social do labor. Platão achava que na língua grega seria inapro-
priado dizer uma bela comida, um belo perfume, mas na lingua-
gem brasileira isso já não soa tão estranho, só que para ele não se
poderia filosofar senão em grego. Não há por que a língua grega
deva ser parâmetro mundial, conforme impera na lógica até hoje.
Não está no Gênesis que ela tenha sido a língua adâmica.
Subjacente a isso deve haver algo mais. A obra de arte é mais
significativa que o artesanato, mesmo quando este seja adornado.
A significação da obra de arte tem sido vista como expressão da
ideia, a manifestação da verdade, a revelação da alétheia. Ela é,
porém, algo mais do que um agente transmissor de algo cuja vali-
dade pretende estar fora dela. De qualquer modo, fica impresso
que o “escravo” não teria nada a dizer. E isso se confirma no livro
VII da República.
Outro ponto central que não é discutido na Politeia é o que se
entenderia por mérito. O que a uns parece mérito, conforme deter-
minado paradigma, pode ser visto como demérito ou carência de
méritos segundo outros paradigmas. A correta aplicação parece
verdadeira para quem não vai além deles. Juízes julgam, conforme
paradigmas, apenas o que consta nos autos do processo, mas
quem garante que tudo o que é atinente ao caso consta dos autos
e quem julga os paradigmas, a leitura que fazem os juízes? Na
Igreja essa questão é reprimida pelo voto de obediência, pela
propaganda sacralizadora, pela crença no absoluto. Até mesmo
Freud disse, ao querer a expulsão de jovens brilhantes da socie-
dade psicanalítica, que preferia a instituição aos gênios. A univer-
sidade brasileira é uma instituição marcada pela perseguição e
discriminação contra o talento.
Não discutir o mérito do mérito não é ocasional, mas determi-
nado pelo movimento ideológico subjacente à obra, que leva a olvidar
o sentido de verdade como “alétheia”, como um desvelamento, para
optar pela “correção conforme paradigmas”. Há um paradigma
básico na “casa” que é a caverna e que não é questionado. Nessa
Mentiras na verdade da República
153