tando com a mesma velocidade os horizontes de expectativas dos contemporâneos( p. 311-312). A relação entre horizontes de expectativas e espaços de experiências é esclarecedora para pensarmos os grupos políticos que atuavam no Brasil nas primeiras duas décadas do XIX preconizando o surgimento de diversos projetos políticos, ou, nas palavras de István Jancsó e João Paulo Pimenta, de“ alternativas de futuro”, engendradas a partir de“ múltiplas identidades políticas” conflitantes ou complementares entre si. Para estes autores( 2000, p. 392), a instauração do Estado brasileiro se dá em meio à coexistência, no interior do que fora anteriormente a América portuguesa, de múltiplas identidades políticas, cada qual expressando trajetórias coletivas que, reconhecendo-se particulares, balizam alternativas de seu futuro. Essas identidades políticas coletivas sintetizavam, cada qual à sua maneira, o passado, o presente e o futuro das comunidades humanas em cujo interior eram engendradas, cujas organicidades expressavam e cujos futuros projetavam. Nesse sentido, cada qual referia-se a alguma realidade e a algum projeto de tipo nacional.
Essas identidades políticas – análogas às“ peças de um mosaico” – carregavam em si mais ou menos“ elementos de modernidade”, sem, contudo, abandonar totalmente as tradições, que ainda moldavam as expectativas de futuro, bem como os usos do passado. Os projetos( e confrontos) em torno das definições do Brasil nação, bastante visíveis na Constituinte de 1823, são significativos para pensarmos essas aparentes contradições entre modernidade( modelo importado de nação) e tradição( especificidades locais). A discussão em torno da naturalização dos portugueses pode ser um prato cheio para visualizar tais embates.
Aos 22 de maio de 1823, o pernambucano e ex-revolucionário de 1817, Muniz Tavares, apresenta à Assembleia o seu projeto de lei que tratava da naturalização de portugueses residentes no Brasil. Justifica a sua iniciativa legislativa tendo em vista que o Brasil,“ por mui justas e legítimas razões”:
[...] renunciou para sempre toda e qualquer união política com Portugal ou com outra qualquer nação que se oponha a sua Independência, assumindo por este ato solene o distintivo título de nação soberana e verdadeiramente livre.( AAC I, p. 91). 2
Desta forma, não poderia deixar de considerar Portugal como uma nação estrangeira,“ e por consequência todos os portugue-
2 A sigla AAC I refere-se aos Anais da Assembleia Constituinte( tomo I).
Quem vai ser brasileiro?
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