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Prisão perpétua
Pablo Maia Almeida Alves
E foi assim que Fábio se foi... calado, frio e no meio da calçada. Ele foi sem se expressar,
sufocado pelos seus sentimentos.
Na infância não gostava de futebol, nem brincar de carro. Sua paixão mesmo era a dança.
Gostava de pular e se mexer, principalmente, no seu quarto. Só vivia trancado. Ventilador
de teto ligado frequentemente, carpete de madeira, uma mesinha e um computador. Esse
era o seu canto de conforto, onde podia dançar em paz. Fábio morava com seus pais, que
falavam para ele que dança é coisa de veado. Se fosse para terem filho veado, nem de
filho chamariam. Fábio era muito pressionado pelo seus pais. A mãe concordava com
tudo que o pai falava. Fábio tinha apenas 8 anos.
O tempo passou. Fábio cresceu e faz vários amigos. Porém, tinha um amigo que era
especial: Ruan. Era seu melhor amigo. Os dois amavam dançar e gostavam das mesmas
coisas. Era a amizade perfeita.
Em uma sexta-feira, Fábio e Ruan saíram cedo da sua última aula e foram para o grande
salão. Um espeço que era utilizado para apresentação de teatro. Possuía uma grande
cortina marrom na sua frente e, logo atrás dessa cortina, um belo piano eletrônico. Era lá
que Fábio e Ruan gravavam suas músicas e deixavam o piano no automático. Depois era
só dançar. Eles faziam isso todas as sextas, mas aquela era especial. Enquanto dançavam,
conversavam sobre mulheres. Ruan perguntou a Fábio: o que você acha das meninas? e
Fábio respondeu com bastante timidez: acho elas bastante legais e bastante cheirosas
porém, não me sinto atraído por elas. Ruan reagiu de uma forma estranha. Perguntou se
ele era bixa, ao que Fábio negou. Mas, no fundo, Fábio sabia que se sentia atraído por
Ruan. Depois desse dia, Ruan começou a se afastar de Fábio e andava pelo colégio
afirmando que Fábio era bixa. Todos riam, todos julgavam e apontavam. A notícia chegou
até os seus pais. Naquela noite, Fábio havia tomando uma surra por ter nascido
homossexual. Mas a culpa não era dele. Nasceu daquele jeito. Fábio negava os seus
sentimentos e fingia ser algo que não era. O tempo foi passando e Fábio não aguentava
mais. Queria alguém para amar e para ser amado, mas não havia ninguém, só os
julgadores. Então Fábio, um jovem de 17 anos, resolveu tirar sua própria vida. Não tinha
a quem amar e não era amado por ninguém. Se jogou do vigésimo primeiro andar do seu
colégio. Morreu gay, mas se fingia de hétero. Com medo das opiniões dos outros,
manteve-se numa prisão perpétua.
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