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Caixa de Pandora
Hedric Thomaz
A noite está piorando a cada dia. Ele não consegue passar um dia sem chorar, sem se
machucar, ou pensar em morrer. A verdade é que ele está à beira do abismo, mas as
pessoas não veem. E as que estão vendo fingem que nada acontece, como se estivessem
vendadas.
Ele, alto, de cabelos bem cacheados, vai à escola todos os dias. Gosta de ficar perto de
todos, de andar pela área verde da quadra e pelos corredores, que estão cheios mesmo
sendo um pouco estreitos. Guilherme gosta de sua escola, pois lá, na maioria das vezes,
não se sente só. Diferente de quando está em seu quarto frio, escuro, vazio, mas cheio de
dores e de seus milhões de pensamentos. Teve mais uma de suas crises de ansiedade. Pra
ele esse era seu pior momento. A sensação de estar tendo uma parada cardíaca era
horrível. Guilherme se sentia sem chão em meio a suas crises, pois quando mais precisava
ninguém aparecia, parecia que tinha ocorrido o arrebatamento. Em meio a essa crise,
mutilou-se como se não sentisse nada. Cortou seu cabelo pra descontar a raiva que tinha
de si mesmo, e chorava horrores sem ter um colo para confortá-lo.
Em sua cabeça, ele era um peso na vida dos outros. Era a pessoa que vivia perturbando
as outras. Por isso, resolvia se afastar. Sua depressão só piorava as coisas. Ele estava
cansado de precisar de remédios para sobreviver a si mesmo. Então, ali em seu quarto,
tomou a decisão mais desesperadora. Guilherme iria cometer suicídio. Pegou uma faca
de sua mãe, que estava bastante amolada e brilhava de tão prata que era. Essa atitude pode
parecer egoísmo, mas, por incrível que pareça, era uma decisão de desespero, afinal, ele
queria dar um fim a tudo que lhe machucava.
Guilherme cortou sua própria garganta, esguichando um jato de sangue. Parece ter
atingido sua artéria. O que acontecia era que ele estava morto há muito tempo, morto por
dentro, carregando um vazio imenso que não sabia explicar.
Sabe de uma coisa? Talvez agora, do seu lado, tenha um Guilherme tentando fazer o
mesmo, talvez você não percebeu, ou até ignora. Mas cuidado, meu amigo, a vida é como
uma caixa de pandora, nunca se sabe o que vai escapar dela. Ela é cheia de surpresas e
talvez nem todos entendam.
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