Revista Novembro Jornal Manauara - novembro 2018 | Seite 3
O Velho
Era uma vez um velho muito velho, quase cego e surdo, com os joelhos
tremendo. Quando se sentava à mesa para comer, mal conseguia
segurar a colher. Derramava a sopa na toalha e, quando afinal, acertava
a boca, deixava sempre cair um bocado pelos cantos. O filho e a nora
dele achavam que era uma porcaria e ficavam com nojo. Finalmente,
acabaram fazendo o velho se sentar num canto atrás do fogão.
Levavam comida para ele numa tigela de barro e o que era pior nem lhe
davam o bastante. O velho olhava para a mesa com os olhos
compridos,
muitas
vezes
cheios
de
lágrimas.
Um dia, suas mãos tremeram tanto que ele deixou a tigela cair no chão
e ela se quebrou. A mulher ralhou com ele, que não disse nada, só
suspirou. Depois ela comprou uma gamela de madeira bem baratinha e
era ali que ele tinha de comer. Um dia, quando estavam todos sentados
na cozinha, o neto do velho, que era um menino de quatro anos, estava
brincando com uns pedaços de pau. O que é que você está fazendo? –
perguntou o pai. Estou fazendo um cocho, para papai e mamãe
poderem comer quando eu crescer – o menino respondeu. O marido e a
mulher se olharam durante algum tempo e caíram no choro. Depois
disso, trouxeram o avô de volta para a mesa. Desde então passaram a
comer todos juntos e, mesmo quando o velho derramava alguma coisa,
ninguém dizia nada.
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