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ENTREVISTA
GOUVEIA | REVISTA MUNICIPAL
RM REVISTA MUNICIPAL | A DESCOBERTA DE QUE TANTO SE FALA E NA QUAL O RUI TEVE O SEU CONTRIBUTO, TRATA-SE EXACTAMENTE DE QUÊ?
RL RUI LOPES | A originalidade da nossa investigação consiste em termos utilizado uma ferramenta molecular inovadora, a CRISPR-Cas9, para identificar regiões do genoma humano com função desconhecida até á data. Nós testamos milhares de regiões diferentes e descobrimos que algumas delas são essenciais para a divisão e proliferação das células tumorais. Além disso, conseguimos descobrir como é que estas regiões conferem vantagem ás células tumorais. Um exemplo particular, nós identificámos uma região que contém um elemento regulatório do gene p21. Este gene é fundamental para controlar a divisão celular e reparar as mutações do DNA, dois processos fundamentais para prevenir o aparecimento de doenças genéticas como o cancro. Nós descobrimos que a inativação da região regulatória resulta na diminuição da produção da proteína p21 e consequente aumento da divisão das células afectadas. O descontrolo da divisão celular é uma das características chave das células tumorais e o nosso trabalho permitiu descobrir um novo mecanismo molecular que está por detrás deste fenómeno.
RM O QUE É QUE ESTE PASSO TÃO IMPORTANTE PODE SIGNIFICAR PARA OS DOENTES ONCOLÓGICOS?
RL O nosso trabalho de investigação é focado nos mecanismos moleculares das células tumorais mas em termos clínicos, tem principalmente duas aplicações futuras: 1. No diagnóstico, através da identificação de mutações nas regiões regulatórias que nós caracterizámos. Dado que sabemos qual é a função de cada uma destas regiões, agora podemos entender o significado clínico das mutações que são identificadas em tumores humanos. Na prática, isto pode traduzir-se num melhor diagnóstico do tipo de tumor e também pronóstico acerca da evolução da doença.
2. A identificação e caracterização destas regiões abre as portas a novos tratamentos do cancro. Por exemplo, a partir de agora será possível testar fármacos para inibir ou aumentar( consoante o caso) a atividade das regiões regulatórias de modo a eliminar as células tumorais. Esta investigação não é o“ fim da linha”, mas sim o começo. O que nós fizemos foi uma prova de princípio, ou seja, mostrámos que é possível fazer este tipo de trabalho pela primeira vez. Agora, o desafio é continuar a descobrir quais são as funções de toda a sequência do genoma humano e quais as são as alterações genéticas que contribuem para o desenvolvimento e progressão do cancro. Este conhecimento tem um valor incalculável e eu acredito que vai contribuir decisivamente para curar esta doença.
RM A DESCOBERTA FOI E É“ FALADA” EM DIVERSOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, E FOI PUBLICADO NUMA REVISTA MUITO CONCEITUADA NA ÁREA DA INVESTIGAÇÃO. O QUE ISTO SIGNIFICA PARA UM JOVEM INVESTIGADOR COMO O RUI?
RL Esta investigação foi o culminar de vários anos de trabalho que tenho vindo a desenvolver desde que estou na Holanda. É um sonho tornado realidade ver o produto do meu trabalho publicado na Nature Biotechnology, dado ser uma revista científica muito conceituada e com grande visibilidade. O artigo foi muito bem recebido por parte da comunidade científica e acho que vai contribuir para me abrir portas no futuro. A prova disso é que já fomos contactados por outros grupos que querem desenvolver projetos de investigação semelhantes ao nosso.
RM COMO É QUE SE SENTE SENDO O ÚNICO PORTUGUÊS A TRABALHAR NUMA EQUIPA DE INVESTIGAÇÃO MULTINACIONAL NO INSTITUTO HOLANDÊS DE CANCRO NA HOLANDA, NUM PROJECTO TÃO IMPORTANTE?
RL O grupo em que eu trabalho é uma equipa multidisciplinar e multinacional. Tenho a sorte de trabalhar com pessoas muito inteligentes e criativas, com quem aprendi muito ao longo destes anos. O NKI-AVL tem um ambiente muito dinâmico e internacional, e isso contribuiu imenso para eu me adaptar rapidamente a Amesterdão. Como português, sinto uma gratidão imensa por estar aqui a trabalhar com uma bolsa de doutoramento FCT. No futuro, espero poder retribuir com conhecimento o investimento que Portugal fez na minha formação.
RM COMO É QUE COMEÇA O INTERESSE PELA INVESTIGAÇÃO?
RL Eu comecei a fazer investigação durante os meses de Verão no departamento de Genética da UTAD, sob a supervisão do Professor Doutor Guedes-Pinto e da Professora Doutora Paula Lopes. Foi nessa altura que eu descobri o que era realmente investigação e, acima de tudo, que eu gostava de fazer investigação! No entanto, o meu interesse pela biologia e genética começou no ensino secundário, durante as aulas da professora Cidália Reis. Acho que tive sorte em ter tido excelentes professores e isso contribuiu imenso para a minha carreira na ciência.
RM COMO É QUE AS PESSOAS DA SUA ALDEIA NATAL, MANGUALDE DA SERRA, QUE O VI- RAM CRESCER, VÊEM O RUI NESTE MOMENTO, COMO INVESTIGADOR NUMA ÁREA QUE AFECTA A VIDA DE UMA GRANDE PERCENTAGEM DA POPULAÇÃO?
RL Eu estava em casa quando o meu artigo foi publicado, e nessa altura recebi imensas mensagens de apoio e carinho dos meus amigos. Eu acho que as pessoas que me conhecem e viram crescer continuam a olhar para mim da mesma maneira – apenas notam que estou mais velho e tenho cabelos brancos! No entanto, senti que os meus conterrâneos ficaram muito orgulhosos pelo meu trabalho. Isso é um motivo de grande alegria para mim e faz-me sentir ainda mais orgulhoso de ter nascido e crescido em Mangualde da Serra.
RM QUAIS OS PLANOS PARA O FUTURO?
RL No imediato, quero concluir outros projetos de investigação que ainda estão em curso e depois defender a minha tese de doutoramento no final deste ano. Quando terminar o doutoramento, quero continuar a aplicar a tecnologia CRISPR-Cas9 para investigar e tratar o cancro. Eu ainda não decidi onde vou prosseguir a minha carreira mas em princípio continuarei a trabalhar num centro de investigação. Eu gostaria de regressar a Portugal, mas à partida vou ficar no estrangeiro nos próximos anos. No futuro, tenho a ambição de criar uma empresa para desenvolver e comercializar produtos relacionados com a tecnologia CRISPR-Cas9.