TÃO PERIGOSA
QUANTO BONITA
LYGIA PEÇANHA
Águas-vivas, medusas, mães d’água.
Imagine um ser que morou na imensidão e caiu. Imagine um ser que nunca
viu sua queda. Não teve impacto. Não deixou nenhum corpo marcado.
[Escutamos um zumbido agudo seguido de um estalar de língua]
Aquilo que não possuí certezas ou inquietações cai sem fazer estardalhaço ou
deixar qualquer vestígio da queda e morre constantemente porque a morte
é transposição.
Vive-se no estado que antecede a morte. Sem cheiro. Fecal. Mole.
Se movimenta através do vento ou da corrente marítima.
Não sabe nadar, andar ou voar.
[Ouçam]
Há apenas duas estruturas de um corpo: a boca e o ânus.
A boca como centro do corpo
O ânus como centro do corpo
Envoltos por um suco gástrico que inebria
Ácido penetrante
O seu desequilíbrio provém das perturbações causadas pelo medo ou pela
dúvida, prenúncios constantes de vômito.
Ao tempo que sua existência é somente possível na tentativa de experimentar
os próximos momentos em vibrantes ondas elétricas, expele o gozo pleno de
algo que morrerá em seguida, mas não morre.
Morrerá ainda, na areia, evaporando toda água
de seu corpo que é boca, ânus e ácido.
Doce e translúcida enfim.