REVISTA MIOLO Miolo_12_05_2019 | Page 95

TÃO PERIGOSA QUANTO BONITA LYGIA PEÇANHA Águas-vivas, medusas, mães d’água. Imagine um ser que morou na imensidão e caiu. Imagine um ser que nunca viu sua queda. Não teve impacto. Não deixou nenhum corpo marcado. [Escutamos um zumbido agudo seguido de um estalar de língua] Aquilo que não possuí certezas ou inquietações cai sem fazer estardalhaço ou deixar qualquer vestígio da queda e morre constantemente porque a morte é transposição. Vive-se no estado que antecede a morte. Sem cheiro. Fecal. Mole. Se movimenta através do vento ou da corrente marítima. Não sabe nadar, andar ou voar. [Ouçam] Há apenas duas estruturas de um corpo: a boca e o ânus. A boca como centro do corpo O ânus como centro do corpo Envoltos por um suco gástrico que inebria Ácido penetrante O seu desequilíbrio provém das perturbações causadas pelo medo ou pela dúvida, prenúncios constantes de vômito. Ao tempo que sua existência é somente possível na tentativa de experimentar os próximos momentos em vibrantes ondas elétricas, expele o gozo pleno de algo que morrerá em seguida, mas não morre. Morrerá ainda, na areia, evaporando toda água de seu corpo que é boca, ânus e ácido. Doce e translúcida enfim.