REVISTA LIDER COACH | Julho | 14
caso I - beco sem saída
Dizem que mulher é amor. Na minha opinião, mulher é vontade.
Permitam-me compartilhar um pouco de minha intimidade. Aos 16 anos, passei no vestibular em duas universidades, cada qual numa cidade. Pela manhã, Artes; à noite, Publicidade e Propaganda. A distância nem era tanta, o problema era não ter condições financeiras para arcar com um produto de luxo chamado “educação de qualidade”.
Embora, o desempenho acadêmico fosse bom em ambos os cursos, ao final do primeiro ano, tive que optar por um deles. A escolha mais cômoda era seguir os estudos na universidade cujo campus encontrava-se na minha própria cidade que, além do mais, era pública. Entretanto, decidi pelo curso com o qual mais me identificava, na cidade vizinha, numa universidade particular. Recebi o apoio de alguns românticos que pregavam a máxima de que devemos seguir nosso coração, fazer o que realmente gostamos. Por outro lado, as pessoas mais próximas, em especial meu pai, criticaram duramente minha escolha. Bancar meus estudos não era prioridade devido à grave crise financeira que nossa empresa familiar passava. Estava decidida a concluir a graduação, mas a que preço?
Não era bonita, mas jovem, com pele tenra e brilho nos olhos. Não há nada mais sedutor do que isso. Fui muito assediada, mas nunca pensei em fazer algo que fosse de encontro aos meus valores. Aprendera isso com outra mulher, minha mãe que falecera um ano antes de eu passar no vestibular entre os primeiros colocados. Cada vez que uma “oportunidade” dessas se apresentava, pensava “o que minha mãe diria?!” Então, tornava-se fácil dizer “Não, obrigada!”.
Tudo tem um preço. Paguei com meu orgulho. Comia os restos dos lanches que sobravam sobre as mesas no refeitório. Era comum pegar carona, à noite, na estrada que ligava as duas cidades. Dava um pouco de medo subir na boleia de um caminhão. Minha autoconfiança e fé em Deus faziam-me arriscar-me de um modo que não aconselho a ninguém. Quando decidi que não poderia mais colocar-me em risco daquele modo, passei a utilizar o ônibus intermunicipal. Nem sempre tinha como pagar a passagem. Simplesmente embarcava e orava para não ser expulsa no meio do caminho. Nunca aconteceu. Os cobradores e fiscais faziam vistas grossas ou algum estranho, compadecido, pagava meu passe. Qualquer um sentir-se-ia humilhado, eu não. Sentia orgulho de mim porque estava agindo em conformidade com meus valores e minhas crenças, seguindo firme com meu propósito.
Concluí a graduação aos 20 anos com o Diploma de Láurea Dom Antonio Zattera. Fui a primeira colocada no curso de Comunicação Social, considerando as três habilitações disponíveis na Universidade Católica de Pelotas.
Este breve relato sobre mim não é para enaltecer meu ego. Não fiz nada além de manter meu sonho vivo, praticamente ignorando os obstáculos ao longo do caminho. Para realizar o desejo de ser mãe aos 45 anos, busquei nesta menina a força que achava ter perdido. A pele tenra nunca mais terei de volta, mas o brilho no olhar, ahhhhh, esse é notório. Toda vez que tenho um desafio pela frente, volto ao passado, relembro passo a passo e agradeço a Deus. Hoje, tudo faz sentido. As dificuldades eram, em verdade, esmeril para polir minha alma.
Andrea Guerreiro