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LiteraLivre Edição Especial nº 1
O Drama da Surdez
Rosimeire Leal da Motta Piredda
Villa Velha/ES
O que há de comum entre mim e LUDWIG VAN BEETHOVEN (o maior e
o mais influente compositor da música clássica universal)? A inspiração poética
que vem do íntimo e é revelada em nossas criações e a SURDEZ. Os primeiros
sinais de ensurdecimento surgiram antes que nós completássemos 30 anos,
custamos a assumir e foi impossível esconder porque era óbvio.
Minha mãe e minha irmã tinham este problema: é hereditário! Se eu tivesse
filhos, alguns deles poderiam desenvolver esta deficiência. Gradativamente ia
perdendo a minha capacidade de identificar o som e hoje se tornou grave, faço
leitura labial. Assisto pouco à televisão (leio as legendas na tela mas, às vezes,
são diálogos longos que não dá tempo para ver as cenas e cansa as vistas).
Guardei minha coleção de CDs de músicas eruditas (só me resta fechar os
olhos e resgatar em minha memória as maravilhosas sinfonias). Em casa
escuto sons na rua e penso que é alguém gritando, entretanto ao abrir a janela
vejo que são cachorros latindo. Ir a consultas médicas somente com
acompanhante. Outros, sabendo que sou surda, quando me encontram
preferem falar com a pessoa que está ao meu lado ou me evitam. E ainda há
aqueles que torcem os lábios ou reviram os olhos para cima demonstrando seu
desgosto ou os que perdem a paciência e encerram a conversa. Muitos não
entendem que eu posso compreender ao olhar para os lábios e se atrevem a
fazer comentários que jamais teriam coragem de dizer em minha presença, por
exemplo: duas senhoras, uma falou para a outra: “Lá vem à surda!” Ah, agora
fiquei invisível: sim, pois muita gente finge que não me vê e passa direto. O
ato de ter que repetir palavras provoca um transtorno sobrenatural!
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