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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
e começou a desembrulhar as sementes. Eram muitas, excessivamente frágeis,
parecidas com minúsculas folhinhas secas.
Um relâmpago intenso clareou o céu, um trovão ensurdecedor ecoou e a
menina, de susto, quase engoliu a língua.
- Tinhoca! Tinhoca! Anda menina! A chuva vai ser braba!
De longe, as vozes da mãe e da avó gritavam o nome dela. Precisava ir, e
precisava guardar as sementes! Como?!
Não teve saída. Acomodou o embrulho no tronco do pé de café, planejando
que voltaria na manhã seguinte para buscá-lo. Feito isso, saiu desembestada
para casa. No caminho, o vento a deslocava do chão. Bastou colocar os pés no
alpendre, a chuva veio feito dilúvio.
À noite, deitada, imaginava como iria secar e embalar as sementes para
guardá-las novamente no baú. E, arquitetando, conjeturando, dormiu.
Acordou com o mugido do gado no curral. Correu para a porta da cozinha,
a chuva havia parado, a umidade cobria tudo. Mal trocou de roupa, passou a mão
num embornal e rumou para o esconderijo das sementes.
Não havia pacote, não havia sementes. Vasculhou tudo, andou por várias
fileiras de pés de café, pelos carreadores. Nada. Tudo era barro vermelho, lama.
A chuva de vento varrera toda a roça, desfolhara o cafezal.
E as sementes?! Como explicaria?
Ficou pensativa por alguns dias. Depois, esqueceu...
E os dias corriam. A menina não teve mais vontade de mexer no baú.
Quando lembrava, empurrava a ideia. Nem passava pelo quarto.
As chuvas se foram, o sol reinou escandaloso, as plantas pareciam ainda
mais verdes, as flores coloriam tudo. As flores?!
- Tinhoooooooooooca!!!
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