Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 51

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 Charlote e Seu Casaco de Pele CCS São Paulo/SP Todas as manhãs Charlote bebia água morna e vestia apenas um casaco de penas de avestruz no calor ela não usava nada por baixo e no frio ele a esquentava bem Ainda de manhã ela assistia pela janela as flores se inclinando sob o vento e desejava que seu corpo fosse ou soubesse fazer umas curvas daquelas também O que ela mais gostava – era do vento tocando seu corpo sem encostar nele Quando ela vê os dois – flor e vento dançando – tinha certeza de que nunca havia amado alguém Ela não conseguia acreditar em nada que levasse mais tempo do que se leva para ler essa linha – ou que durasse menos do que a decisão exigida pelo paradoxo que surgia quando o segurança parado na porta dizia “Você não pode entrar com este casaco, moça” “Você também não pode entrar nua” Ela só tinha aquele casaco mas pensando melhor ela não iria cambalear muito caso o jogasse fora e se vestisse com seus ossos e engolisse a própria pele – quem sabe assim seria mais fácil se curvar como a flor da manhã sob o vento 46