Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Página 33
LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
O que mais me surpreendia ao início, antes de me habituar ao caótico
consumismo dos seres desumanos, era a forma como reprovavam o desdenho
por dinheiro malgasto. Como se, quando quem quer que nos criou, pretendessem
que gastássemos dinheiro para agradar, quanto mais para agradar o próximo.
Aliás, sabem lá eles o que é dinheiro e, honestamente, julgo que preferem não
saber. Quando alguém criou o Homem, agradar o próximo significava rabiscar
animais e cenas de caça nas paredes das cavernas com sangue, saliva e carvão.
E quem ilustrasse a cena mais tentadora e sensual conquistava a Homo Erectus
mais grossa da tribo. Na altura, a mais grossa era que tivesse mais pelo, que era
para aquecer. Ser aquecido pela macaca mais peluda era um privilégio, mas, se
não se tivesse cuidado, o pelo eriçado cortava a pele até chegar à carne. E, se
ela fosse mulher a sério (qual Chewbacca), ainda cortava a carne, grelhava,
virava e o jantar estava pronto. Com pena minha, o conceito de amor alterou-se
quando o conceito de compra nasceu. O «ama o próximo» transformou-se no
«oferece qualquer coisinha ao próximo, para não parecer mal».
Admito que todos os anos cedo e acabo por oferecer uma lembrança
àqueles que me são mais próximos, quer pelo natal quer pelo aniversário. Perdi a
batalha contra o ridículo gasto de dinheiro e foi uma batalha da qual saí perdedor,
embora com dignidade e de peito erguido. Penso que, apesar de ter sido
acorrentado pela equipa adversária, orgulhei todos os magnatas que combatem
este tipo de crime, através de tentativas de amar o próximo que, honestamente,
me deixam envaidecido. Aqui ficam alguns dos meus feitos. Tentei, inúmeras
vezes – foi uma –, agradar através de pinturas rupestres, mas a minha namorada
não achou piada nenhuma a que eu tenha ilustrado o duelo corpo a corpo entre a
minha cadela e a gata dela na parede da sala. Já que tinham lutado, pelo menos
aproveitei o sangue que sobrou para alguma coisa. Até hoje, a orelha esquerda
da Mia continua a ser o brinquedo favorito da minha cadela. Já tentei ainda um
outro esquema: esfregar pauzinho com pauzinho, a ver se pegava fogo, e a
verdade é que pegou e, mais uma vez, o guru do amor não recebeu crédito.
Sinceramente, não percebi porquê, a minha mãe não fica nada mal sem cabelo.
Para além de que as horas em que se sentia prisioneira do secador, da escova e
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