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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
-O que deseja ? - disse com certa relutância, mas amável.
-Compartilhar convosco minha desdita, pois todos quantos visitam as
páginas desse malfadado drama têm se preocupado apenas com seu aspecto
artístico, dramatúrgico, ignorando as implicações morais e existenciais entre os
participantes da tragédia.
-Suponho que haja uma história por trás dessa história - adivinhando-lhe a
preocupação.
-Correto.
-E qual seria ?
-Sabeis o quanto eu amava Desdêmona...
-Isso é público e notório.
-Porém não suspeitais de que vem de outras vidas essa paixão...
Acreditando na pluralidade das existências, concordei -Posso imaginar.
Quando começou?
-Até onde me lembro, há pelo menos duas encarnações imediatamente
anteriores.
-E como aconteceu ?
-Pertencíamos a famílias ilustres que viviam se digladiando por qualquer
motivo...
-Os Montecchio e os Capuleto ? - arrisquei de novo.
-Sim, eu me chamava Romeu,ela, Julieta.
-Vocês se suicidaram depois de verem frustrada a tentativa de se juntarem
- lembrei-me vagamente.
-Os planos elaborados desde a Espiritualidade eram outros. O objetivo
maior era o de conciliar os espíritos de nossas famílias, secularmente inimigos.
Devíamos agir com mais sensatez e paciência, conquistando o apoio de cada
membro das duas casas, evitando os confrontos e duelos, usando como
intercessor frei Lourenço, mas os arroubos da juventude levaram-nos a precipitar
aqueles acontecimentos que nos desgraçaram.
-No fim as duas famílias reataram seus laços de amizade... - querendo
consolá-lo.
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