LiteraLivre n º 8 – Mar / Abr de 2018
Estava decidido. Embora fossem temas delicados, precisava falar com um deles. Se fosse com ele, não gostaria que lhe contassem? Mas é melhor falar com Madame, refletiu. Mulher sempre tem mais tato nesses momentos.
No outro dia pela manhã Jorge estava lá, revirando o lixo atrás das latinhas. A garrafa de uísque também estava, como previu. Naquele dia estava demorando mais que o costume, esperando a deixa para cumprir com sua obrigação de amigo e cristão. Pontualmente, Madame saiu de casa às oito. Fazia pilates às segundas e quartas e yoga às terças e quintas, sempre nos mesmos horários. Duas vezes por mês trocava a aula pelo motel com Arnaldo, quando a esposa dele tirava plantão na cidade vizinha.- Madame, por favor, se tiver um tempinho … se não for incomodar …- Desculpa, moço, mas estou atrasada.- Eu prometo, Madame, que é rápido …- Realmente, moço, estou muito atrasada hoje. Ana Cristina estava com o coração na boca. Meu Deus! Era só o que faltava. Ser abordada na saída de casa por um catador. Ela já havia falado a Moacir que pagasse o tal do vigia particular. Era um pouco caro, mas era só combinar com os vizinhos e ratear o custo. No final, todos sairiam ganhando e não ficava pesado pra ninguém. Esse bairro já não era o mesmo desde que fizeram aqueles condomínios de gente pobre no final da rua.
Estava horrorizada. Não podia suportar aqueles favelados que ficavam revirando seu lixo. Tudo bem que eles pegavam as latinhas para vender, e muitas vezes algumas sobras de comida. Mas alguém deveria identificar e botar um crachá nesse povo. E se houvesse um bandido entre eles?
Naquela noite, mais uma vez, Jorge não conseguiu dormir. Não por ter sido ignorado ou humilhado, mas por não ter conseguido ajudar.
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