Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 145

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 Próximos Pelo Lixo Carlos Henrique Barth Macaé/RJ Jorge revirava o lixo do 231 à procura das latas de Budweiser. Aqui estão! Definitivamente, a fase da Stella Artois havia passado. Ontem foram só duas. Doutor não gosta de beber muito nas quartas. Amanhã é dia de aparecer a garrafa de uísque no lixo, embora nas últimas semanas esse padrão tenha variado um pouco. Antes as garrafas duravam exatos sete dias. Nas últimas duas semanas duraram cinco e quatro dias, respectivamente. Será que Doutor estaria com algum problema no trabalho? Ou seria no casamento? Estava preocupado. Já estava acostumado com as caixas de rivotril de Madame no lixo, mas nas últimas duas semanas — que coincidência! — começaram a aparecer também caixas de fluoxetina. A moça da farmácia havia explicado a Jorge que esse remédio é para quem sofre de tristeza. Das bravas. Naquela noite Jorge nem dormiu direito preocupado com Madame. Estava tomando coragem para abordá-la e recomendar que tomasse chá de arruda e erva de São João. Não tem erro, garantia ele. E ainda livraria ela de tomar esses remédios que acabam viciando o paciente. O problema deve ser o menino! Sabia que isso um dia viria à tona… Havia três meses que as seringas começaram a aparecer no lixo, sempre bem escondidas, mas não o suficiente para escapar ao crivo de quem busca o sustento no que os outros não querem mais. Jorge havia questionado Dogão se era ele quem estava vendendo drogas ao menino do 231. O traficante disse que não, que aquela área não era dele, era do Comando Vermelho. Além disso, o esquema dele era pó e fumo. Esse negócio de injetável era coisa de elite. Jurou por Deus que não tinha nada a ver com isso, que tinha muito respeito por Seu Jorge e jamais mentiria pra ele. Deve ser verdade. Conhecia Dogão desde criancinha. Havia morado com a mãe dele há muito tempo atrás, 140