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LiteraLivre nº 4
principalmente do baixo elétrico. Aquele maldito baixo elétrico vermelho que
emite as boas novas que meu coração não quer saber, mas, que ele, baixo
elétrico teimoso que é, insiste em emitir. Eu ainda não me fartei do trombone
de vara. Tão imponente. E esquecido... Como também sou eu (esquecido, e
nunca imponente).
Eu estou afadigado, caro leitor. Estou afadigado da cidade de Altamira, a
cidade do grande empreendimento. Estou cansado do caos, da desordem, do
descuido e do descaso. Estou cansado dos imbecis que atropelam pessoas
todos os dias, seja de Camaro ou de GM. Estou farto também do calor do
asfalto altamirense, das filas de banco, das filas de mendigo, dos filhos da puta
que deveriam zelar pela cidade. Estou cansado dos fumadores de maconha e
dos cheiradores de pó do cais novo e principalmente, estou cansado de ver a
morte andando ao meu lado como um fantasma que insiste em me abraçar. E
eu, farto, porém fugaz, corro. No entanto, eu não estou farto de Brasil Novo, a
cidade interiorana, e da sua pracinha humilde. E nem da poeira do campo de
aviação que divide o Centro da Rodovia Transamazônica e suja a varanda de
casa.
Eu já disse uma vez em rodas de amigos ao bebericar cerveja e acolher
com apetite aos aperitivos: não sou futurista. Andrade também não o era. Mas,
afirmo-lhos: não sou modernista, não sou arcadista e nem neoclassicista. Não
sou realista, naturalista e nem romantista. Não sou comunista e nem
capitalista. Não sou atualista, não sou diarista e com toda certeza não sou
fascista. Talvez eu seja um farsista. Talvez um artista. E com certeza um
fartista. Farto de tudo isso. Farto inclusive, do lirismo, que Andrade exaltava.
Eu estou tão farto de tudo que poderia aqui dar fim ao Fartismo. Não.
Não quero. Quero fazer escola. Quero ter discípulos. Quero que esses
discípulos procurem comigo o fim do Fartismo. Quero em minha frente pessoas
que reclamem. Que se mostrem fartas, mas, que além de tudo, se disponham
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