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LiteraLivre nº 4
Fartismo
Hugo Sales
Brasil Novo/PA
Segue
abaixo
a
crônica-manifesto
de
um
novo
movimento.
Um
movimento que não tem nada de importante. Apenas é inútil, pois não
manifesta nada, caro leitor. Está fundado o Fartismo. Peço que esse manifesto
seja impresso em forma de panfleto para ser entregue na Avenida Brasil, na
Rua do Comércio e principalmente, nas vielas solitárias da minha solidão,
vielas as quais eu caminho, caminho, caminho e não chego a canto algum. E
disso eu estou farto. Peço também que esse manifesto seja feito em forma de
outdoor e de folder, que apesar de serem os termos citados provenientes da
língua inglesa, tornaram-se meus conhecidos no curso de Língua Portuguesa.
Peço também encarecidamente: quem vier a achar algum desses panfletos
jogados nas ruas a poluir, rasgue-o. Não leia.
Fartismo sim. Uma cópia barata (bem barata) e desavergonhada do
Desvairismo? Quem me dera. Eu sou apenas um pequeno mortal perto de
Andrade. Lá, ele desvaira, enlouquece, quebra as regras; aqui, eu me canso,
eu lamento, eu me abato diante de tudo que me extenua.
Eu estou farto dos dias de sol que insiste em sair no leste dando a
impressão de que tudo de bom vai acontecer, mas, a única coisa que ocorre é
o calor copioso e infindado nesses dias que se morrem logo, ao poente. Eu
estou cansado, meu amigo leitor, da esperança que vive, do verde da
perseverança, do vermelho da luta. E mais ainda do azul que colore o céu e os
prédios deste inferno. Eu só não me canso do preto e do branco. Eu estou
cansadíssimo, caro, das moças que insistem em caprichar no desprezo.
Dessas, eu estou cansado. Estou cansado das Luanas, Patrícias, Tainaras,
Kellys, Anas, Elens e das Franciscas. Estou cansado deste sentimento agridoce
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