Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 59

LiteraLivre nº 4 Fartismo Hugo Sales Brasil Novo/PA Segue abaixo a crônica-manifesto de um novo movimento. Um movimento que não tem nada de importante. Apenas é inútil, pois não manifesta nada, caro leitor. Está fundado o Fartismo. Peço que esse manifesto seja impresso em forma de panfleto para ser entregue na Avenida Brasil, na Rua do Comércio e principalmente, nas vielas solitárias da minha solidão, vielas as quais eu caminho, caminho, caminho e não chego a canto algum. E disso eu estou farto. Peço também que esse manifesto seja feito em forma de outdoor e de folder, que apesar de serem os termos citados provenientes da língua inglesa, tornaram-se meus conhecidos no curso de Língua Portuguesa. Peço também encarecidamente: quem vier a achar algum desses panfletos jogados nas ruas a poluir, rasgue-o. Não leia. Fartismo sim. Uma cópia barata (bem barata) e desavergonhada do Desvairismo? Quem me dera. Eu sou apenas um pequeno mortal perto de Andrade. Lá, ele desvaira, enlouquece, quebra as regras; aqui, eu me canso, eu lamento, eu me abato diante de tudo que me extenua. Eu estou farto dos dias de sol que insiste em sair no leste dando a impressão de que tudo de bom vai acontecer, mas, a única coisa que ocorre é o calor copioso e infindado nesses dias que se morrem logo, ao poente. Eu estou cansado, meu amigo leitor, da esperança que vive, do verde da perseverança, do vermelho da luta. E mais ainda do azul que colore o céu e os prédios deste inferno. Eu só não me canso do preto e do branco. Eu estou cansadíssimo, caro, das moças que insistem em caprichar no desprezo. Dessas, eu estou cansado. Estou cansado das Luanas, Patrícias, Tainaras, Kellys, Anas, Elens e das Franciscas. Estou cansado deste sentimento agridoce 54