Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Seite 47
LiteraLivre nº 4
Dissimulada
Carlos Azevedo
Santa Marinha do Zêzere-Baião- Portugal
Indiferente, fria e implacável,
Ronda a deusa maquiavélica
Na imensa quinta que reivindica
Caminha encostando-se a qualquer tronco
Não dando nas vistas, dissimulada,
Cercando sempre e espreitando
Na ânsia de encontrar qualquer nesga
Por onde se infiltrar
Adora o silêncio e o murmúrio sofrido
Adora tudo quanto desfalece
E vai perdendo forças e energias
Entrou agora naquele lar
E delicia-se em inundá-lo
Em deixá-lo embebido no seu fragor
Adora o sofrimento quase a findar
E desdenha o invólucro que o envolve
Não lhe interessam os corpos ressequidos
Reduzidos a pele e osso
Anseia por reter a alma
Prestes a esvoaçar, liberta,
Agarra-a com avidez e triunfante
Vai conduzi-la sem contemplações
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