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LiteraLivre nº 4
Atravessando a Rua
Paulo Emílio Azevedo
Rio De Janeiro/RJ
Fui ao banco, mas não havia nem mesmo uma cadeira para sentar.
Banco é um iate de luxo para quem tem paciência que a vida vai melhorar e
ajoelha no invisível fazendo promessa econômica. A paciência, por sua vez vai
mudando cada vez que não há banco e a fila estando todos de pé somente
aumenta sua trilha mais distante da rua - a rua é o lugar sonhado para quem
está dentro do banco. Atravesso a rua, presságio da liberdade; do outro lado o
destino pretendido, mas não encantado - o Fórum. Esse é o irmão gêmeo do
banco, mas curiosamente não tem mãe. O Fórum é a cama da Justiça onde a
infidelidade mora, se se chamasse Motel seria mais digno. Depois de três horas
nada resolvido, a poesia morre por alguns minutos nestes instantes. Mas, nem
tudo está perdido.
Entro num táxi e tocava "Infinito Particular" na voz sublime de Marisa
Montes. Volto a sonhar. O motorista diz: _música chata demais né!?
Essa cumplicidade entre taxista e passageiro no Rio de Janeiro é um
blefe da euforia pensando que existe amizade à primeira vista - se há amor
não sei, mas amizade é córrego se tornando oceano no fim da vida.
Não satisfeito, ele completa: _o senhor me dá licença, mas eu vou ouvir
notícia do FlaxFlu para ver se o Flamengo barra a liminar.
Como eu disse: é a Justiça.
Times de futebol são patrocinados por Bancos.
Saí do táxi e sentei num banco de praça. Estou na rua. A liberdade é um
encontro tardio consigo próprio, sem constrangimentos.
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