Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 25

LiteraLivre nº 4 Atravessando a Rua Paulo Emílio Azevedo Rio De Janeiro/RJ Fui ao banco, mas não havia nem mesmo uma cadeira para sentar. Banco é um iate de luxo para quem tem paciência que a vida vai melhorar e ajoelha no invisível fazendo promessa econômica. A paciência, por sua vez vai mudando cada vez que não há banco e a fila estando todos de pé somente aumenta sua trilha mais distante da rua - a rua é o lugar sonhado para quem está dentro do banco. Atravesso a rua, presságio da liberdade; do outro lado o destino pretendido, mas não encantado - o Fórum. Esse é o irmão gêmeo do banco, mas curiosamente não tem mãe. O Fórum é a cama da Justiça onde a infidelidade mora, se se chamasse Motel seria mais digno. Depois de três horas nada resolvido, a poesia morre por alguns minutos nestes instantes. Mas, nem tudo está perdido. Entro num táxi e tocava "Infinito Particular" na voz sublime de Marisa Montes. Volto a sonhar. O motorista diz: _música chata demais né!? Essa cumplicidade entre taxista e passageiro no Rio de Janeiro é um blefe da euforia pensando que existe amizade à primeira vista - se há amor não sei, mas amizade é córrego se tornando oceano no fim da vida. Não satisfeito, ele completa: _o senhor me dá licença, mas eu vou ouvir notícia do FlaxFlu para ver se o Flamengo barra a liminar. Como eu disse: é a Justiça. Times de futebol são patrocinados por Bancos. Saí do táxi e sentei num banco de praça. Estou na rua. A liberdade é um encontro tardio consigo próprio, sem constrangimentos. 20