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LiteraLivre nº 4
Olhar
Aldenor Pimentel
Uberlândia/MG
Eles andavam nus. Sempre andaram. E nada de errado viam nisso.
Olhar o corpo nu do outro era tão corriqueiro e puro como contemplar o
pôr do sol ou responder a um sorriso com outro.
Naquele povoado, não havia escrita, não havia papel. Tudo o que
aprendiam registravam no próprio corpo. Tatuavam na pele sinais de fácil
compreensão. E aprendiam uns com os outros pelo olhar. Os corpos nus
eram como livros abertos, prontos para serem lidos. Assim, tudo era
partilhado e nenhum saber se perdia.
Quando alguém morria, repetia-se o ritual. O corpo era exposto na
praça central e todo o povoado se reunia para ver. Passavam dias e dias
olhando o corpo exposto, até terem certeza de que nenhum sinal
tatuado passara despercebido por ninguém. Em seguida, cobriam todo o
corpo com fibras de uma árvore e o enterravam onde não pudesse ser
visto. Depois de uma vida inteira, sua missão estava cumprida.
Com o tempo, o inevitável contato com outros povos aconteceu.
Um deles, em especial, que se instalou pelas redondezas, cobria-se dos
pés à cabeça. Não se olhavam nos olhos. Aliás, não se olhavam.
Acreditavam que todo olhar é invasivo e, por isso, deve ser evitado.
Pouco a pouco, os mais jovens daquele povoado passaram a sentir
vergonha do próprio corpo. Começaram a esconder as partes íntimas, as
pernas, o tórax, o abdômen e, no final, já cobriam o corpo todo. Quando,
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