Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 123

LiteraLivre nº 4 Olhar Aldenor Pimentel Uberlândia/MG Eles andavam nus. Sempre andaram. E nada de errado viam nisso. Olhar o corpo nu do outro era tão corriqueiro e puro como contemplar o pôr do sol ou responder a um sorriso com outro. Naquele povoado, não havia escrita, não havia papel. Tudo o que aprendiam registravam no próprio corpo. Tatuavam na pele sinais de fácil compreensão. E aprendiam uns com os outros pelo olhar. Os corpos nus eram como livros abertos, prontos para serem lidos. Assim, tudo era partilhado e nenhum saber se perdia. Quando alguém morria, repetia-se o ritual. O corpo era exposto na praça central e todo o povoado se reunia para ver. Passavam dias e dias olhando o corpo exposto, até terem certeza de que nenhum sinal tatuado passara despercebido por ninguém. Em seguida, cobriam todo o corpo com fibras de uma árvore e o enterravam onde não pudesse ser visto. Depois de uma vida inteira, sua missão estava cumprida. Com o tempo, o inevitável contato com outros povos aconteceu. Um deles, em especial, que se instalou pelas redondezas, cobria-se dos pés à cabeça. Não se olhavam nos olhos. Aliás, não se olhavam. Acreditavam que todo olhar é invasivo e, por isso, deve ser evitado. Pouco a pouco, os mais jovens daquele povoado passaram a sentir vergonha do próprio corpo. Começaram a esconder as partes íntimas, as pernas, o tórax, o abdômen e, no final, já cobriam o corpo todo. Quando, 118