Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 108
LiteraLivre nº 4
É isso que não conseguia engolir! A violência da favela. O perigo iminente e
latente do morro... É assustador! Coisa comum é ver brigas, tiros, mortes.
Nem sabe quantos garotos da sua idade morreram por aqui nestes últimos
meses! É rotina... Toda manhã os corpos aparecem jogados, perfurados por
balas ou castigados por pancadas. Comum acontecer e difícil suportar...
Impossível mesmo! Cassiano fica apavorado, temeroso, perdido.
Sua irmã chega à porta do barraco. Espreguiça o corpo demoradamente.
Dormiu até agora. Já é quase noite! Está chegando a hora de Cassiano entrar.
Sente vontade de esperar a mãe, ali. Mas, é perigoso, não convém.
O pai está demorando mais que o costume! Cassiano não se sente confortado.
Gosta de ter o pai por perto quando a noite chega. Não tem remédio... É noite,
e o jeito é entrar.
Cassiano ergue o corpo, olha novamente lá embaixo, no pé da escada. Nada...
Nenhum dos dois aponta. Entra no barraco. A irmã, exalando um cheiro de flor,
enjoativo, tem um espelho nas mãos e passa, repetidas vezes, o batom nos
lábios. É bonita a danada! Cassiano olha-a demoradamente e pensa em como
seria bom se ela tivesse metade da beleza em juízo. No mínimo sofreria menos
no futuro. Esse tipo de vida nunca acaba bem, sempre deixa marcas e
dissabores profundos.
Está assim, pensando, quando ouve a porta do barraco bater. A danada já saiu
e ele nem tinha percebido!
Cassiano estremece quando se lembra de que está sozinho. Bem que a mãe
podia chegar logo! Olha pela fresta da porta, mas nada vê. Está muito escuro
lá fora... Senta-se no banco da cozinha e não consegue ficar sereno. Dentro do
peito, a aflição, o desespero, o medo. Não quer ficar sozinho... Por que sua
irmã não ficou com ele até a mãe chegar? Menina matreira! Pensa em contar
tudo ao pai. Por que ele também não chega?!
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