LiteraLivre n º 3
Parou, respirou ofegante. Ninguém. Alta madrugada. Voltou para casa. Perplexo. Fechou o portão. Dormiu cansado. E sem sonhar.
No dia seguinte, quando saiu para trabalhar, e uns poucos carros passavam para lá e para cá, viu que, no meio deles, uma borboleta girava no vento. Parou e ficou na calçada a olhá-la. O que ela fazia? Viu um cachorro passar. Imaginou o corpo dele como algo quente e alerta. Voltou o olhar novamente para a borboleta, que já não estava. Suspirou, com medo, ao restar apenas o próprio corpo para a sua atenção. Estremeceu ao se imaginar quebrando o esqueleto do menino. Um arrepio.
Que mundo era aquele que podia se camuflar ou se revelar em um segundo de distração? O que criaturas aladas estariam aguardando, assim, tão perto e aqui? Distraiu-se. Seus olhos estavam fisgados por dois mundos simultâneos. Que isso se espalhasse para os braços e, depois, para as mãos, o frio, de algum jeito, o alcançaria; e ele precisaria sempre de ter asas, sentenciado por um invisível quente, lutando para ser quente. Sentia. Era o que agora pulsava em sua mente, no escritório, em frente à tela bucólica do computador. E do mesmo modo que nada dizia, não sabia o que fazer. Não sabia agora e sentia bem forte que nunca saberia.
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