LiteraLivre nº 3
lua estava cheia. Iluminava a sua face quente, os seus olhos selvagens.
Sentiu que o sangue circulava. Tocou mentalmente cada ponto do seu
corpo, usou o pensamento. Raciocinou aquele mistério.
Onde estava mesmo? Dois mundos se dividiam, como águas que
se desencontram. Sua cabeça se repartia. Ele sabia que era impossível
existir dois mundos assim, sem que ninguém notasse. Impossível, dois
mundos. Resistia. Foi ao fim da cidade. Olhou o céu, encarou a lua,
ouviu os grilos. Era já outro mundo, longe do portão. Era também uma
outra vida? Estancou. Estagnou, pensativo, hipnotizado.
Ouviu um barulho de rio. Depois, de mato. Havia algo no mato.
Seus olhos estavam firmes, como os do gato. Seguiu os rastros sonoros.
Entrou no mato escuro, iluminado pelo céu da noite, e viu. Viu um
menino magro, assustado como um cego, girando para todo lado,
procurando algo para se encostar, com as mãos para trás. Quem seria
ele, não pensou. Avançou. O menino ficou mais agressivo, defensivo.
Fez gestos bruscos para afastar o invisível. Então, ele tocou o ombro do
menino. Um pulo. Um salto para trás e os dois ajeitavam os corpos para
a briga. Encararam-se. O menino via. Desfez-se o susto. Fez-se um riso.
Conhecia-o. Você veio, o menino disse. Você chegou. Eu, que estava
cego, agora posso enxergar. Todos nós ganhamos olhos a ver mais,
algum dia. Venha, vamos ao fundo. Tens que quebrar o meu esqueleto.
Foste sequestrado pelas borboletas. Faça-o e minha pele será tuas asas.
O homem assustou-se, ofegante. Um susto, um delírio, uma
urgência. Onde ele havia ido parar? Sentiu-se um intruso. Não sabia o
que fazer. Esperou. Aguardou que aquilo se desfizesse. Mas o menino
continuava ali, parado, também no aguardo. Estou perdido, pensou. E o
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