Revista LiteraLivre 3ª edição | Page 92

LiteraLivre nº 3 lua estava cheia. Iluminava a sua face quente, os seus olhos selvagens. Sentiu que o sangue circulava. Tocou mentalmente cada ponto do seu corpo, usou o pensamento. Raciocinou aquele mistério. Onde estava mesmo? Dois mundos se dividiam, como águas que se desencontram. Sua cabeça se repartia. Ele sabia que era impossível existir dois mundos assim, sem que ninguém notasse. Impossível, dois mundos. Resistia. Foi ao fim da cidade. Olhou o céu, encarou a lua, ouviu os grilos. Era já outro mundo, longe do portão. Era também uma outra vida? Estancou. Estagnou, pensativo, hipnotizado. Ouviu um barulho de rio. Depois, de mato. Havia algo no mato. Seus olhos estavam firmes, como os do gato. Seguiu os rastros sonoros. Entrou no mato escuro, iluminado pelo céu da noite, e viu. Viu um menino magro, assustado como um cego, girando para todo lado, procurando algo para se encostar, com as mãos para trás. Quem seria ele, não pensou. Avançou. O menino ficou mais agressivo, defensivo. Fez gestos bruscos para afastar o invisível. Então, ele tocou o ombro do menino. Um pulo. Um salto para trás e os dois ajeitavam os corpos para a briga. Encararam-se. O menino via. Desfez-se o susto. Fez-se um riso. Conhecia-o. Você veio, o menino disse. Você chegou. Eu, que estava cego, agora posso enxergar. Todos nós ganhamos olhos a ver mais, algum dia. Venha, vamos ao fundo. Tens que quebrar o meu esqueleto. Foste sequestrado pelas borboletas. Faça-o e minha pele será tuas asas. O homem assustou-se, ofegante. Um susto, um delírio, uma urgência. Onde ele havia ido parar? Sentiu-se um intruso. Não sabia o que fazer. Esperou. Aguardou que aquilo se desfizesse. Mas o menino continuava ali, parado, também no aguardo. Estou perdido, pensou. E o 86