LiteraLivre n º 3
casa. Em sua vida. Para repor o que foi quebrado, o que foi desperdiçado. Eu querendo ir e querendo ficar. Ele me oferece seus ovos. Mora perto. Gentilezas nascendo. Lábios sorrindo. Dentes mostrando. Brancos, tão brancos no pensamento obscuro. E sorri na tarde calorosa. Suor escorre pela pele, pelo poro, pela curva, pela dobra. Derreto. De desejo. Peço água. Desisto. Rendida. Abre a geladeira. Tudo em ordem, etiquetado nos potes de plástico. Mundo perfeito. Meu mundo em desordem. A caixa de ovos na prateleira de cima. Ao fundo. Difícil alcançar. Mãos se tocam. Desculpas dadas. Desculpas aceitas. Sorrisos sem graça. Sorrisos brancos. Desgraça.
Eu caminho. Tu caminhas. Nós caminhamos. Cada qual no mesmo pedaço, o corredor que leva ao quarto. Um caminho que cabem dois mundos. Passos rápidos. Sem acompanhar o tempo. Sou convidada a entrar em sua cama. Em sua vida. Ele se oferece. Gentilezas nascendo. Lábios sorrindo. Dentes mostrando. Brancos, tão brancos no pensamento feito de ares desconhecidos, de novos cheiros. E sorrimos na tarde amorosa. Suor escorre pela pele, pelo poro, pela curva, pela dobra. Derreto. De desejo. Peço água. Peço a lua e as estrelas, o céu e o mar. O céu ele me dá. Rendida. Tudo em ordem. Mundo perfeito. E cresce a conversa. E cresce a fome no ventre. E crescem os filhos. E cresce a conta de luz. E cresce a conta do condomínio. E cresce a conta do telefone. E cresce a matrícula da escola. E cresce a água no tanque. E cresce as discussões com o marido. E cresce o escuro da noite. E crescem as árvores no quintal. E cresce a ansiedade. E o sol da tarde se espicha na janela. Amarelo como uma gema gigante pairando no céu. As crianças logo voltam da escola. E o marido. Com a fome crescida no
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