LiteraLivre nº 1
perceber, o que me fez refletir se aquele meu pesadelo não estivesse, afinal, acontecendo
a todo tempo e eu que não estava percebendo; a vibração constante e torturantemente
igual à da canção que o universo desde sempre toca; a textura macia e pesadíssima do ar
e da tessitura dimensional que une o tempo e espaço... sem contar a gangorra de alguém.
Quando um estampido atrás de mim gelou minhas costelas, corri sem olhar para
trás até me ver a socar as grades de entrada do meu prédio, culpando-me por não ter
acordado antes o porteiro que ainda estava a dormir. Ofegante, como se algo houvesse
se quebrado em meu cérebro, a adrenalina a queimar minha nuca, à garganta seca,
sentei em minha cama incapaz de me mover, impossibilitado de me deitar, até que senti
uma mão a se deslizar pelo meu braço esquerdo – a maciez! –, a apertar seus dedos nos
meus ombros – a tessitura! –, a aproximar seus lábios do meu rosto, dar-me um beijo, e,
abraçando-me, sussurrar: “Me lembre de falar de novo com o vizinho de cima, amor. O
barulho dessa privada está infernal!”.
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