Revista LiteraLivre 1ª Edição | Page 99

LiteraLivre nº 1 perceber, o que me fez refletir se aquele meu pesadelo não estivesse, afinal, acontecendo a todo tempo e eu que não estava percebendo; a vibração constante e torturantemente igual à da canção que o universo desde sempre toca; a textura macia e pesadíssima do ar e da tessitura dimensional que une o tempo e espaço... sem contar a gangorra de alguém. Quando um estampido atrás de mim gelou minhas costelas, corri sem olhar para trás até me ver a socar as grades de entrada do meu prédio, culpando-me por não ter acordado antes o porteiro que ainda estava a dormir. Ofegante, como se algo houvesse se quebrado em meu cérebro, a adrenalina a queimar minha nuca, à garganta seca, sentei em minha cama incapaz de me mover, impossibilitado de me deitar, até que senti uma mão a se deslizar pelo meu braço esquerdo – a maciez! –, a apertar seus dedos nos meus ombros – a tessitura! –, a aproximar seus lábios do meu rosto, dar-me um beijo, e, abraçando-me, sussurrar: “Me lembre de falar de novo com o vizinho de cima, amor. O barulho dessa privada está infernal!”. 94