Revista LiteraLivre 1ª Edição | Page 89

LiteraLivre nº 1 Rio Doce Marcos Santiago Governador Valadares/MG Permita-me apresentar: Chamo-me Rio Doce, ou melhor, os outros é que assim me chamam. Não sei se há algo de doce em mim, senão a várzea que enamoro. Nasci no aconchego montanhoso de Minas Gerais, no encontro entre Do Carmo e Piranga. Como menino inquieto, rompi a terra rumo ao Atlântico, iluminado pelo Espírito Santo. Mato a sede de muita gente, de cidade em cidade. Essa é minha sina, e doravante arrisco rima, sou de dar alegria pra quem é de amizade. Mas já me excedi, peço desculpas. É que o ressentimento me transbordou. Note que o tom amarronzado pode ser claustrofobia. Às vezes tenho saudades do tempo em que me espreguiçava pelas margens que hoje me sufocam (noite e dia). Ando meio esgotado, se é que me entende. Carente de atenção dessa gente, que culpada ou inocente, faz minha alma assorear. Trafego magro e melancólico, sem o reflexo cristalino de outrora. Até os peixes me deixaram como se em triste degola. Mas para os amigos, não vou lamuriar, ainda me resta - o resto - da mata ciliar. Aos pés do Pico da Ibituruna sigo corrente, pelo caminho que bravamente construí. Guardo comigo os feitos de desbravadores que navegaram por aqui. E quando a chuva vem, minha rima melhora, minha cabeceira se alegra e me deleito como outrora. Ainda vivo e vou cantando pelas terras que beijei. Se sou doce, isso já não sei. Sei é que sou líquido da vida – tomara que bem vivida - na torneira dos que ouvem minha estória. E se ainda rego o sorriso de uma criança, isso me basta como memória. 84