LiteraLivre nº 1
Quatro Histórias
Marcelo Almeyda
São Paulo/SP
Anoitecia, enquanto caminhava avenida à fora, no vai e vem frenético dos carros, Juliano
pensava nas mil declarações que gostaria de fazer a Suzana. Amigos desde infância,
aquele encontro a dois para um jantar íntimo era a oportunidade certa para declarar todo
o sentimento que guardava desde pequerrucho. Elaborou mil vezes o mesmo discurso,
repetindo para si todas as palavras decoradas meticulosamente. Ao chegar no encontro,
comeram, dançaram e relembraram todos os momentos felizes que a primeira infância
podia proporcionar. Ao fim da noite, ela embarcou num taxi e ele partiu em direção ao
metrô. Ambos com a sensação de que ficara algo por esclarecer, mais uma vez todo o
discurso que havia ensaiado minguou como a lua que timidamente sorria no céu e o
acompanhava no caminho de volta.
Em outro canto da cidade, Clarisse já não tinha mais lágrimas para chorar o fim de seu
romance com Caetano. Pegou o celular pela milésima vez, e observando todas as fotos e
vídeos do casal, reviveu momentos mágicos, viajou à primeira vez em que se viram
naquele quiosque de praia no fim do verão. Cantou baixinho a música preferida deles, e
chorou mais um rio de lágrimas que ele, boêmio da noite não viu. Correu em meio a praça
cheia de pessoas que aproveitavam a noite amena daquele rigoroso outono. Horas depois
foi encontrada entre ratos e sacos de lixo num beco escuro qualquer depois de tentar falar
com seu amado e mais uma vez ser jogada para escanteio. Voltou para casa amparada
por estranhos, tomou um longo banho, vestiu uma de suas camisolas preferidas e tomou
tranquilizantes o bastante para adormecer um búfalo. Morreu, sem dores e sem
ressentimentos, partiu deixando-se levar pelo sentimento que ainda insistia em queimar
dentro de si.
Enquanto nossos personagens pereciam de tristeza e melancolia, a noite de Claudio tinha
tudo para ser especial. Naquele dia estava completando três meses de relacionamento
com Maria e estava tão apaixonado que decidiu pedir sua mão em noivado. Escolheu um
bom restaurante, mesa estratégica com vista para lua minguante que sorria no céu,
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