Revista LiteraLivre 1ª Edição | Page 85

LiteraLivre nº 1 Quatro Histórias Marcelo Almeyda São Paulo/SP Anoitecia, enquanto caminhava avenida à fora, no vai e vem frenético dos carros, Juliano pensava nas mil declarações que gostaria de fazer a Suzana. Amigos desde infância, aquele encontro a dois para um jantar íntimo era a oportunidade certa para declarar todo o sentimento que guardava desde pequerrucho. Elaborou mil vezes o mesmo discurso, repetindo para si todas as palavras decoradas meticulosamente. Ao chegar no encontro, comeram, dançaram e relembraram todos os momentos felizes que a primeira infância podia proporcionar. Ao fim da noite, ela embarcou num taxi e ele partiu em direção ao metrô. Ambos com a sensação de que ficara algo por esclarecer, mais uma vez todo o discurso que havia ensaiado minguou como a lua que timidamente sorria no céu e o acompanhava no caminho de volta. Em outro canto da cidade, Clarisse já não tinha mais lágrimas para chorar o fim de seu romance com Caetano. Pegou o celular pela milésima vez, e observando todas as fotos e vídeos do casal, reviveu momentos mágicos, viajou à primeira vez em que se viram naquele quiosque de praia no fim do verão. Cantou baixinho a música preferida deles, e chorou mais um rio de lágrimas que ele, boêmio da noite não viu. Correu em meio a praça cheia de pessoas que aproveitavam a noite amena daquele rigoroso outono. Horas depois foi encontrada entre ratos e sacos de lixo num beco escuro qualquer depois de tentar falar com seu amado e mais uma vez ser jogada para escanteio. Voltou para casa amparada por estranhos, tomou um longo banho, vestiu uma de suas camisolas preferidas e tomou tranquilizantes o bastante para adormecer um búfalo. Morreu, sem dores e sem ressentimentos, partiu deixando-se levar pelo sentimento que ainda insistia em queimar dentro de si. Enquanto nossos personagens pereciam de tristeza e melancolia, a noite de Claudio tinha tudo para ser especial. Naquele dia estava completando três meses de relacionamento com Maria e estava tão apaixonado que decidiu pedir sua mão em noivado. Escolheu um bom restaurante, mesa estratégica com vista para lua minguante que sorria no céu, 80