Revista LiteraLivre 1ª Edição | Page 83

LiteraLivre nº 1 PRIMEIRO BEIJO Luísa Aranha – Rio Grande do Sul Se eu pudesse fazer o mundo parar de girar, se eu tivesse o dom de mudar distâncias, se eu criasse a máquina do tempo ou se eu fosse capaz de congelar as horas, em qualq uer uma dessas situações, eu me prenderia a esse sorriso. Eu não consigo olhar para os lados, meus olhos estão vidrados, em tudo que eu vejo é seu sorriso que enxergo. Tímido, doce, intenso, com os olhos que carregaram tanta paixão, tanta curiosidade e uma certa tristeza que não é sua. E eu preciso desse sorriso, mais do que preciso de ar. Eu quero saber tudo sobre você. Suas dores, suas marcas, suas vitórias e derrotas. Quero entender de onde vem essa tristeza no olhar, de onde vem essa voracidade familiar, o que seu sorriso não me diz, mas sei que lá está. Meus olhos encaram a teus lábios, e eu só quero sentir o gosto da doçura que neles vejo. No canto da sua boca, o lábio superior mais arqueado, eu imagino um gosto de pimenta. Minhas papilas gustativas se excitam com a possibilidade de uma mistura agridoce de sabores e sensações. Quente, frio, doce apimentado, úmido. Minha língua cria vida própria e umedece meus lábios, enquanto meus dentes a seguem nessa falta de controle e mordem. Você percebe. Será que me vê e me enxerga? Não é só minha língua e meus dentes que me desobedecem. Meu olhos não conseguem desviar, minhas mãos começam a suar frio e meu corpo inteiro se ascende me deixando brilhante como uma noite estrelada. Seu sorriso tem malícia, não sei se você age por impulso ou pura diversão, mas o abre ainda mais, transformando todo o seu rosto em uma grande explosão de felicidade e eu vejo em seus olhos fogos de artifício multicoloridos e eu... eu só quero fotografar esse momento para sempre. 78