Revista LiteraLivre 1ª Edição | Page 74

LiteraLivre nº 1 Os mistérios do Doutor Nasser Heráclito Júlio Carvalho dos Santos – Teresina/Piauí Há tempos nos Caititus Doutor Nasser passava para lá e para cá com sua bata de pediatra e sua malinha com apetrechos de cientista. Dizia-se cientista para as pessoas: - Bom dia, ele passou e cumprimentou Zé Mário que estava sentado no tamborete na porta de sua casa em uma Rua nos Caititus. - Oba seu Nasser, como vão as coisas? Indagou o Zé Mário. - Muito Bem. Doutor Nasser caminhava pausadamente em direção a casa na qual vivia e, sem perceber, crianças o acompanhavam. Ele chegou em frente à sua casa, pegou o molho de chaves no seu bolso e abriu. Estava eu na porta de casa observando tudo. - Você viu? Ele tem uma mala com facas, dessas de cirurgia, disse o pingolim para Marquinhos. - Vamos lá ver, Marquinhos era a mais empolgada das crianças. Doutor Nasser fechou a porta e uma luz vermelha foi acesa. Marquinho e Pingolim se acotovelavam para observar nas frestas da porta o que aquele estranho e auto proclamado cientista estava fazendo. Eu que prezo pela privacidade dos outros fui tanger os meninos como quem tange galinhas de volta para o terreiro: - Ei saiam daí! - Vem seu Borges, vem ver aqui, chamou o Marquinho fazendo sinal com as mãos. Confesso que bateu uma curiosidade e fui lá ver o que estava acontecendo. Quando meti o olho em uma das frestas da porta percebi que Doutor Nasser caminhava para lá e para cá em uma espécie de impaciência coletiva. - Chega pra lá, empurrou Marquinho ao Pingolim. - Sai pra lá seu louco, dá espaço, respondeu o Pingolim. Doutor Nasser percebeu o barulho e se dirigiu a porta para ver o que se tratava. - Corre, Corre! Gritei e todos nós nos dispersamos para lados diferentes. Ele abriu a porta lentamente, observou de um lado para o outro o que acontecia, franziu a testa como quem não entendia nada e fechou a porta novamente. - Ei meninos, vão embora! Disse aos dois traquinos que insistiam em mexericar com a vida alheia. Amanheceu no dia seguinte com um sol de queimar as costelas. Eu já havia levantado e tomado café e fui sentar no meu velho tamborete de couro de bode na porta de casa. Era aposentado, portanto, não tinha mais nada para fazer na vida. De repente, do nada, vi o Doutor Nasser sair de casa e trancar a porta. Era cedo da manhã. Com curiosidade dos infernos abordei o cientista para conversar: - Bom dia Doutor! - Bom dia Amâncio. - Doutor, desculpa a pergunta, mas o que senhor tanto faz naquela casa ein? Ele franziu a testa e não titubeou em responder: - Estou desenvolvendo um robô do Sertão. Não entendi nada e insisti: - O que é um robô do Sertão? - É um robô caboclo que vai acabar com os políticos de Teresina, ele vai ser todo de metal 69