LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Léa Costa Santana Dias
Euclides da Cunha/BA
Pedoflia
A menina vestia rosa e sonhava.
Ele, o amigo azul.
– Não, não podiam.
– Podiam, se amigos.
– Sinto vergonha. Tenho medo.
Não se preocupasse: era fácil.
O consentimento: uma boca noutra boca.
Uma só boca.
Era doce, era néctar, era mel.
Uma flor com pétalas cor de menina.
Não se movesse: venda e algemas.
Trêmula e rosada: ela
Rijo e azul: ele.
Uma boca noutra boca, outras bocas noutras bocas.
Bocas, bocas, bocas.
Túneis.
O viajante: inteiro, com força.
Rios.
O navegante: completo, vertido em brasas.
Explosão, liquidez.
Ela: roubada, calada, tão dada.
Aberta, descoberta.
Flor rosada, visitada.
Dele, para ele, só dele.
A denúncia: calúnia! Difamação!
Submetê-la a exame de corpo de delito?!
Absurdo: não se toca em corpo tão puro.
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