Revista LiteraLivre 19ª edição | Seite 117

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Kelly Shimohiro (Irmãs de Palavra) Uma história sobre girafas Mais precisamente sobre o pescoço das girafas. Pescoços gigantes. Dois metros e meio só de pescoço, 270 quilos de puro pescoço, 20 anos de muito pescoço. 20 minutos apenas de sono diário. Na verdade, essa história não é sobre girafas nem sobre o pescoço delas. É sobre você e o seu pescoço. Ele é bem menor que o das girafas. Quase ínfimo se comparado. Esse pescocinho aí, pode até passar a mão, no final da vida – quando já se está velho, gasto e murcho – é mesmo um horror! Humor é o que não falta à escritora, roteirista e diretora de cinema, Nora Ephron, no livro ‘Meu pescoço é um horror’ (2007). Pra começar: esquece essa conversinha fiada de que envelhecer é tudo de bom. É bom sim, mas nem tanto. Ou melhor, existem os percalços e você deve prestar MUITA atenção para não se afundar neles. Tudo bem, nós avançamos em qualidade e expectativa de vida. Estamos rodeados de uma geração de mulheres de cinquenta com rostinho de quarenta (cremes, protetor solar, botox, etc, etc e tal). Hoje, homens e mulheres de sessenta anos estão com tudo em cima, ativos, no melhor da vida, exceto por um gigante detalhe. O pescoço! Maldito delator. Ele quer contar ao mundo a verdade. Por isso, não duvide de Nora Ephron quando ela revela o que tem valor nessa vida: “Não deixem de cuidar do seu pescoço!”. E com ele, cuide de tudo que fica meio escondido. Seus desejos secretos, seus sonhos mirabolantes, seu amor pela vida, os pensamentos diários, as amizades mais íntimas, sua fé no melhor, seus momentos de diversão. Tudo também envelhece com você. Mas no final, não precisa ficar um horror, como o seu pescoço irremediavelmente irá ficar. [114]