Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 88

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Etelvina Manuel São Gonçalo do Sapucaí/MG Jorge e seu Cavalo Eram dias exaustivos nas regiões celestiais. Anjos e santos trabalhavam dia e noite e não conseguiam dar conta de toda a tarefa que era-lhes incumbida. Nesses dias o Grande Rei mandou chamar Jorge, um dos quatorze santos auxiliares e disse-lhe: ― Jorge, tenho observado seu trabalho e gosto de sua dedicação e esforço. Oxalá que todos fossem assim como você! Por tua diligência, dar-te-ei um auxiliar. Tu irás treiná-lo e ele o ajudará a combater nossos inimigos. Te servirá de companheiro e ensinará a ele tudo o'que sabes. Darei a você um belíssimo cavalo. Assim se fez e Jorge recebeu em tua habitação o novo confrade. A princípio foi difícil domá-lo e acostumá-lo com a lida diária de um soldado. Cavalgaram muitas noites e lutaram contra dragões juntos. Venceram inúmeras batalhas e foram condecorados diversas vezes pelo bom trabalho que prestaram ao reino. Entretanto os dias passaram depressa e o orgulho tomou posse do coração do alazão, que começou a alimentar em seu interior planos de exterminar Jorge, e ter as honras só para si. Muitos dos santos auxiliares, e até alguns anjos, procuraram Jorge para alertar-lhe sobre os intentos daquele que dizia ser companheiro. Porém Jorge decidiu não agir de imediato e permaneceu em silêncio durante muito tempo. O cavalo tentou prejudicar Jorge de várias maneiras. Certa vez o derrubou a beira de um precipício, por sorte ele não morreu, correu em resgate com um falso pedido de desculpas, ocultando a maldade existente na sua alma. Para ganhar prestígio entre os santos, prestou-se a fazer duros trabalhos. E foi enaltecido por isso, mas a cada elogio seu coração transbordava de soberba, a ponto de procurar o Soberano e proferir inúmeras calúnias a respeito de Jorge. Dias passaram e chegou o momento em Jorge não aguentou mais se calar diante daquela situação. Levantou sua espada e esbravejou na presença de todos: Amaldiçoado seja pangaré! Ensinei-te tudo o'que sabes! Tudo deves a mim. E em retribuição ao que te tornei, me oferece palavras mentirosas e calunias infames. Tu não devias ser cavalo e sim uma cobra, pois és tão venenosa quanto a mais peçonhenta das serpentes. Santos e anjos pasmaram-se ao ver Jorge dizer aquelas palavras ao cavalo, que logo disparou em galope rumo à baía, onde chorou amargamente. [85]