Revista LiteraLivre 17ª edição | Seite 83

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Eduardo Carvalho Rio de Janeiro/RJ Rua do Tempo Perdido A Rua do Tempo Perdido começa logo depois de uma curva, mas não se sabe bem onde termina. Parece pequena, mas até hoje ninguém conseguiu contar quantas pessoas moram nela – dizem que é gente pra burro. A Rua do Tempo Perdido não está no Google Maps. Comenta-se que fica ali entre o ontem e o anteontem. Está, foi o que disseram, espremida entre o que já foi sonho e o que se tornou frustração. Ela não tem saída. E a cada dia que passa assume mais e mais o tom desbotado e indefinido das casas que a margeiam. Em seu trajeto rumo a Lugar Algum, faz cruzamentos estranhos e dá vida a esquinas como Tempo Perdido com Besteira, Tempo Perdido com Desespero, Tempo Perdido com Melancolia, Tempo perdido com Desesperança, Tempo Perdido com Indecisão, Tempo Perdido com E Agora?, Tempo Perdido com Não Dá Mais, Tempo Perdido com Insegurança, Tempo Perdido com Tristeza, Tempo Perdido com Inveja, Tempo Perdido com Desamor, Tempo Perdido com Desilusão... Segundo relatos, quem nela habita sente uma saudade, assim, lancinante. De tudo, de todos e de si mesmo. Para os seus moradores, a Rua do Tempo Perdido é como uma trincheira, uma proteção contra “isso tudo aí que tá dando errado”, como eles resmungam por lá. Até por isso, consta que a visão do mundo a partir de suas janelas carrega um tanto de pessimismo e outro de solidão, além de incômodos do tipo não entender direito a vida e não saber para onde ir, com quem conversar, em quem confiar, a quem apelar. Na Rua do Tempo Perdido, procura-se o tempo todo uma luz no fim do túnel – mas que não seja a do trem vindo –, uma pontinha de esperança. Lá uma vez ou outra, a danada dá o ar da graça. Voa num fiapo de vento. Tem quem corra e coloque a cara do lado de fora da janela para ver se consegue ser atingido em cheio por ela. Mas quase sempre é em vão. Não pense que não se quer escapar dessa rua. Muito, mas muito raramente, há quem consiga. São uns poucos que um dia se dão conta de que não vivem na Rua do Tempo Perdido. E compreendem que ela é que mora dentro deles. [80]