LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Andréa Carvalho
Rio de Janeiro/RJ
Uma senhora paciência
Comprar um aparelho telefônico,
desses fixos que se usava normalmente
em casa, pode não ser tarefa tão fácil
hoje, talvez porque o objeto não tenha
mais grande procura no mercado. Penso
que
só
isso
explicaria
tamanha
complicação para adquirir o produto.
Pesquisados modelo e preço na
internet - como não quero contar com o
tempo de entrega das compras on-line,
que é algo ainda problemático - dirijo-
me à loja, decidida acerca do que
pretendo levar pra casa. O que sairia por
R$ 99,90 e aproximadamente 20
minutos da minha preciosa manhã de
sábado, acabou custando mais de uma
hora de teste de nervos surpresa.
Aponto na vitrine, trancada à chave,
o modelo desejado. A atendente diz que
só é responsável pelos aparelhos de
celular e pede para que eu aguarde por
outra vendedora. Após um considerável
tempo
de
espera,
meus
dedos
impacientes começam a tamborilar
involuntariamente sobre o vidro. O gesto
parece motivar a jovem a pedir que seja
anunciado o comparecimento da colega
ao balcão: “Responsável pela vitrine da
Figueiredo,
favor
comparecer
ao
mesmo”. Meus ouvidos sensíveis de
professora de Português só ouviram os
ecos do mau uso do vocábulo mesmo,
[42]
mesmo, esmo, esmo. E antes que eu
pudesse me recuperar, mais um
golpe: “Responsável pela vitrine da
Figueiredo, favor comparecer ao
mesmo”.
Ao
todo
foram
três
pancadas. Perseverei sem fazer cara
feia, afinal, eu não estava ali pra
corrigir ninguém, só queria substituir
a antiguidade em teclas quebradas
que eu tinha em casa por um
aparelho novo.
Enfim surge ela, sem pressa
alguma, a desfilar calmamente pela
seção
de
eletrodomésticos,
perguntando desde longe quem a
estaria chamando, como se estivesse
sendo importunada em momento
impróprio.
— Trouxe a chave, Greyce? Essa
senhora aqui quer um telefone.
(SENHORA! Sujeito simples e
claro, no caso, EU). Que mulher com
mais de trinta anos gosta de ser
chamada assim por outra da mesma
idade? Era o que me faltava naquele
dia…
— Que chave? Não está com
você? Era pra trazer?
No balãozinho invisível acima da
minha cabeça lia-se: Não era pra
trazer a chave não, responsável pela
vitrine, era só pra vir aqui e olhar pra